Cristiano Susin, um docente brasileiro em solo americano

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Adentramos dezembro, mês de celebração do Natal. E o nosso entrevistado deste último mês de 2018 mora onde o Papai Noel precisa usar, de fato, roupão, luvas e gorro. Afinal, as temperaturas chegam a 20 graus abaixo de zero.

O vacariense Cristiano Susin conversou conosco em pleno Thanksgiving, feriado americano de Ação de Graças, o mais prolongado dos Estados Unidos. Famílias e amigos se reúnem no dia 22 de novembro para celebrar as conquistas do ano. “É uma data muito importante na cultura americana, mais do que o Natal. Antigamente, se dava graças pela colheita de preparação para o inverno. Herdamos o hábito de nos reunir e agradecer”, explica.

Cristiano agradeceu pela mudança: ele trocou a Geórgia, estado que morou por 10 anos, pela  Carolina do Norte. Foi um grande salto profissional. O vacariense é odontólogo, professor e acaba de assumir a chefia do Departamento de Periodontia da Universidade da Carolina do Norte. Migrou acompanhado de Lisiane, sua esposa, também vacariense, e dos pequenos Sophie e Lucas.

PAIXÃO POR ENSINAR

Cristiano formou-se em Odontologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1996.  Antes mesmo de terminar a graduação, já tinha decidido seguir a vida acadêmica.

“Eu sou um professor de Periodontia, antes de tudo, embora dedique grande parte de meu tempo à pesquisa. Tenho muita vontade de aprender, é quase insaciável. Acredito que o trabalho dignifica a vida, e ensinar é o que me faz mais feliz”, enfatiza.

Ainda na faculdade, ele se inscreveu para um programa especial de treinamento que o despertou para a pesquisa e ensino. “Era um programa da Capes, que dava base a alunos com interesse acadêmico. Visava acelerar a formação de professores. Oportunizava fazer pesquisa, dar aulas, experimentar um pouco de tudo na área. Eu me inscrevi, e nunca imaginei que seria aceito, mas fui. Durante três anos, fiz faculdade durante o dia e participei do programa à noite. Eu já tinha publicações como aluno, o que era bastante raro para a época. Provavelmente, isso acabou direcionando a minha vida”, revela.

Os pais, Osvaldo e Sônia, recordam que o filho sempre foi muito estudioso. “Cristiano sempre foi muito dedicado. Ficamos sabendo que ele tinha optado por odontologia através de um amigo, que nos parabenizou quando viu a lista de aprovados para o vestibular”, conta Osvaldo. A escolha pela odontologia foi baseada na felicidade:

“Eu pensei em medicina e odonto. Fui conversar com profissionais das duas áreas e percebi que os dentistas eram mais felizes”, conta, achando graça.

O jovem não se imaginava trabalhando à noite, fazendo plantões, correndo em emergências.

Mas o ritmo de trabalho dos médicos não o assustava. Cristiano é um hardworking assumido: dá aulas em muitas universidades, chefia um departamento de odontologia, orienta pós-doutorandos, ministra cursos, presta consultoria para empresas e participa de pesquisas de periodontia em diferentes lugares, incluindo o Canadá.

“Muita gente não sabe, mas a doença periodontal é uma doença silenciosa, que acomete uma grande parcela da população, e quando se descobre, já é bastante tarde e provoca a perda dos dentes. É uma infecção silenciosa, diferente de um problema de canal, que dói. Se ela for descoberta há tempo, tem tratamento muito efetivo, consegue manter os dentes ao longo da vida”, alerta. No momento, Cristiano desenvolve uma pesquisa colaborativa sobre novos implantes.

E o que Cristiano faz para manter o equilíbrio na rotina frenética?  Corre ainda mais. “Pratico corrida desde os meus 17 anos. Faço sempre 10 km, três vezes por semana. A corrida me relaxa, me ajuda a manter a rotina, é meu lazer”, confessa.

RUMO AO TOPO NA ACADEMIA

Cristiano tem 45 anos e é um dos talentos brasileiros exportados na área da odontologia. Em 1996, recebeu o diploma de odontólogo. Em 1999, finalizou o mestrado em periodontia na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Em 2000, já estava na Noruega fazendo doutorado na Universidade de Berguen. Antes de terminar o doutorado, já havia migrado para a Filadelfia, ingressando na Temple University, onde seu orientador trabalhava.

É PhD, especialista em periodontia pela Escola de Odontologia da Geórgia. É um acadêmico de sucesso e um dos profissionais mais jovens a chefiar um departamento de odontologia nos Estados Unidos. Está à frente do departamento em que Steven Offenbacher, um dos mais renomados periodontistas do mundo, atuava até falecer.

“O Brasil tem cerca de 180 a 200 faculdades de odontologia. Os Estados Unidos, mesmo sendo um país mais populoso, tem 65. Formamos muitos profissionais, e muitos deles se destacam e são professores nos EUA”, revela.

Lisiane também é odontóloga, é endodontista, e é responsável pela graduação na mesma universidade em que o marido atua. “O que mais sentimos falta, do Brasil, é das pessoas. Ainda bem que somos rodeados de brasileiros por aqui, inclusive na universidade”, diz.

Cristiano deixou a direção de pesquisa clínica na Geórgia para um cargo de chefia na Universidade de Carolina do Norte. “Os avanços profissionais têm chegado antes do que imaginava, mas é fruto de muito trabalho. Há anos venho me preparando para isso. Agora, estou concentrando meus esforços na liderança, na formação de uma excelente equipe. Daqui a seis ou sete anos, penso no próximo passo”, revela.

MEMÓRIAS DE VACARIA

A liderança formal chegou à vida de Cristiano aos 45 anos. Mas ela já se revelava na infância. Por ser filho único, sua mãe sempre se esforçou para que não se sentisse sozinho. “Eu não pude ter mais filhos, e tinha a preocupação de que ele sentisse falta de um irmão”, conta.

Sônia estruturou a garagem da casa com churrasqueira e mesa de pingue-pongue, para acolher os amigos, colocou o filho na escolinha precocemente para que ele convivesse com outras crianças. Era a “mãezona da turma”, sempre buscando e levando a gurizada.

“É interessante essas memórias de infância, as minhas são diferentes da de minha mãe. Eu sempre estive rodeado por muita gente, mas isso era algo natural. Lembro dos passeios na chácara, sempre cheio de gente, às vezes tinha 12 crianças na Caravan. Lembro da minha mãe levando e buscando a gurizada do futebol. Lembro da Fadinha Arteira, a escolinha em que conheci a Lisi”, conta. O menino cresceu seguro, ao lado de amigos e tornou-se um líder.

Cristiano partiu de Vacaria ainda jovem. Mora no exterior há 18 anos. Mesmo depois de tanto tempo longe da terra natal, não perdeu o sotaque gaúcho, tampouco o contato com os conterrâneos.

“A gente sai de Vacaria, mas Vacaria não sai da gente”, confessa. “É a terra onde nasci, terra de meus pais e também de amigos com quem mantenho contato até hoje”.

MATANDO AS SAUDADES

Cristiano e sua família estão bem adaptados em solo americano e aculturados também. “O frio não incomoda tanto. Em Chapel Hill, cidade onde moramos, faz apenas três meses de inverno, neva poucos dias e o frio não é tão rigoroso quanto nos estados que fazem fronteira com o Canadá. No verão faz muito calor também”, explica.

A comida, sempre um desafio para os estrangeiros, já não é de se estranhar: “A essa altura, já  nos acostumamos.  Os grandes e médios mercados daqui têm áreas específicas de produtos latino-americanos. Conseguimos comprar leite condensado, nescau, creme de leite, chocolate granulado”.

A música, por sorte, é acessada por qualquer app. “Em minha playlist toca de tudo, sou eclético. Gosto muito da música dos anos 90. Dias desses, estava ouvindo Legião Urbana”, diz.

Saudades mesmo, ele diz sentir das pessoas. “O que a gente sente falta é das pessoas. Tenho muita sorte porque conto com a colaboração de brasileiros, e muitos alunos do Brasil vêm trabalhar comigo. Atualmente, tem três pós-doutorandos em meu laboratório”, conta.

Da família, a saudade é minimizada com a ajuda da tecnologia. A sorte de Sônia, que sofre com a distância do filho, é que ganhou uma aliada: Sophie, de 6 anos. “Ela gosta de falar português, mostra a casa, o que está fazendo, conta tudo para os avós através do Skype”, conta Cristiano. Lucas, de 4 anos, já é mais reservado. “Agora é que ele está começando a perguntar como se diz palavras em português”, revela.

Cristiano, Lisiane, Sophie e Lucas vêm pouco ao Brasil. “As férias daqui são em julho. Não queremos ir de férias para o frio, buscamos fugir dele”, enfatiza. Nos últimos anos, os pais de Cristiano têm ido uma ou duas vezes ao ano visitá-los, e a mãe de Lisiane reserva dois ou três meses para curtir os netos.

VOLTA AO BRASIL

Apesar de sentir muita falta do Brasil, Cristiano não pensa em regressar tão cedo. “A carreira acadêmica nos Estados Unidos é muito competitiva, precisamos focar. Pensamos em trabalhar aqui até a nossa aposentadoria. Depois, vamos voltar”, avalia.

Eles estão felizes nos Estados Unidos. “O que eu mais gosto é que é um país estruturado. A partir do momento em que você joga o jogo que tem que ser jogado, as chances de obter sucesso são grandes.  Não é cíclico, como o Brasil, que tem ciclos bons e ruins. Aqui é sem alternâncias”.

por Giana Pontalti | dez de 2018

2 COMENTÁRIOS

  1. Cristiano, talvez eu tenha influenciado tua escolha quando convivemos durante o período em que foste par de debutante da tua prima Carolina, minha filha que mora com os dois meninos e o Christophe em Bruxelas. Odonto, começaria tudo de novo…

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