O sergipano que migrou por amor

De Sergipe a Vacaria, por amor

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Esta semana ingressamos em junho* e logo começam as festas de São João. E é pelas quadrilhas que Wilson Santos, 27 anos, tem paixão. Wilson é de Sergipe, o menor Estado do Brasil, com presença tímida na mídia. O Estado faz divisa com Bahia de um lado e Alagoas de outro. É famoso por sua gente, seu folclore e suas grandiosas festividades de São João. É uma terra de contrastes. Tem mar e sertão. Terra onde a caatinga impera ao lado de frondosas lavouras irrigadas pelo Rio São Francisco. “Sergipe tem muita beleza natural. Tem a praia de Atalaia e os cânions de Canindé”, destaca Wilson.

Cânions no Rio São Francisco | Crédito: Ezequiel Seibel

Ainda jovem, Wilson deixou a beleza de Sergipe para trás. Aos 21 anos, partiu de Aquidabã, sua terra natal, em busca de oportunidades. Deixou casa, família e pegou a estrada sem dinheiro à mão. O destino? Sereno, em Mato Grosso do Sul.

“Na primeira entrevista de emprego que fiz, pediram para ver as minhas mãos. Os calos provavam a vontade de trabalhar”, revela Wilson.

Foi imediatamente contratado em uma fazenda de reflorestamento. “Desde que saí de Aquidabã, só fiquei parado 13 dias”, orgulha-se. Durante as folgas na fazenda, Wilson aproveitava para curtir os forrós. E foi na Festa da Cana, em uma cidade vizinha a Sereno, que conheceu Cristiane Alves de Camargo, gaúcha, de Monte Alegre. “Gostei do sorriso dela e a tirei para dançar. Era sexta. No sábado, nos encontramos sem planejar. No domingo, já engatamos o namoro”, conta.

Cristiane, Douglas e Wilson | Crédito: Giana Pontalti

Cristiane subiu o país a trabalho. Depois de quatro meses de namoro, engravidou e precisou regressar. Wilson a acompanhou. “Recebi a notícia da gravidez com muita alegria, pois sempre quis constituir família”, comenta. Antes de morar em Vacaria, o sergipano nada sabia do sul:

“Quando eu era pequeno, ouvia falar do Rio Grande no Jornal Nacional. Pensava que, por causa do frio, a terra era inabitada”.

A única referência que tinha do Estado são as canções de Teixerinha. “Na casa de meus pais sempre tocava Gonzagão, e, por causa da sanfona, descobrimos Teixerinha, que é um mito mundial”, exagera.

Logo que chegou aos pampas, Wilson foi para o batente. Primeiro colheu batata. Depois, trabalhou como servente de construção e nas câmaras frias de maçã. Não se incomodou com as baixas temperaturas. Mas a frieza das relações o chateou. “Em uma loja de eletrodomésticos, me ofereceram um celular inferior ao que eu buscava, só por causa da minha aparência”, denuncia. A esposa Cristiane alerta para o preconceito: “As pessoas em Vacaria precisam parar de imaginar que todo mundo que vem pra cá trabalhar é ladrão”. Depois de atuar na maçã, Wilson ingressou como aprendiz em uma pizzaria. Hoje é funcionário de uma churrascaria e de um mercado.

Prato típico de Aracaju | Crédito: Destaque notícias

Com tanta comida em sua vida é até estranho que seja franzino. Ele diz gostar da comida daqui, embora seja bastante diferente da que está acostumado. “Os pratos típicos do  Sergipe são a buchada de bode e o sarapatel, preparado com as vísceras dos animais. A gente aproveita tudo lá. Tem também o caranguejo, famoso em Aracaju, a capital. Mas é mais para turista”, diz.

Mesmo tão jovem, Wilson afirma que é feliz. “Eu tenho tudo que sonhei: uma esposa que amo e um filho, o Douglas, vacariano. Quando eu tiver a minha própria casa, serei 100% realizado”, confessa. Embora sinta saudades dos pais, diz que a família que formou é a sua prioridade. “Fui visitar meus pais e irmãos cinco anos depois que parti. Fiz questão de ir à casa de barro onde morei, para me lembrar das origens. Meus pais são analfabetos, mas me ensinaram o respeito e a dignidade. Fico chateado quando vejo um empregado com medo de falar com o patrão. Em uma relação, não tem que existir medo, tem que existir respeito. Ninguém é melhor do que ninguém”, afirma. E foi a personalidade e a seriedade do moço que fez Cristiane se apaixonar. “Gostei do Wilson por ser o que é: uma pessoa de valor”, comenta.

O valor de Sergipe, Wilson faz questão de ressaltar. Explica que embora Sergipe e Rio Grande do Sul estejam geograficamente distantes, têm características culturais semelhantes.

“Se aqui tem o rodeio, lá tem a vaquejada, uma atividade esportiva competitiva”, destaca.

“Tem também a sanfona, que aqui marca presença na música gaúcha, e lá, no baião. E tem, ainda, São João. “Todo mundo arruma uma roupa bonita, pinta uma barba e um bigode. Em Sergipe, basta encontrar um amigo que já temos motivos para festejar”, conta.

CURIOSIDADES

MUSEU DA GENTE SERGIPANA
O museu interativo fica em Aracaju. Apresenta, de forma lúdica, o povo sergipano: seu jeito de falar, de vestir e negociar.

CÂNION DE XINGÓ
Com a construção da usina hidrelétrica do Xingó, o Rio São Francisco foi represado e emoldurado por paredões de pedra. O passeio em Canindé de São Francisco é a principal atração turística sergipana.

LAMPIÃO
O cangaceiro mais famoso do Brasil, Virgulino Ferreira da Silva, foi morto no sertão sergipano, em Poço Redondo.

*Coluna publicada originalmente no Correio Vacariense em maio de 2015, na coluna VAI E VEM. 

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