Elias Martello Curzel, a muralha

O goleiro Elias representa Vacaria nos gramados

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A Copa do Mundo já começou. E o que milhares de espectadores e torcedores querem ver é gol, muitos deles. Ao contrário de muita gente, Elias Martello Curzel espera por grandes defesas. “Admiro muito o Neuer, goleiro da Alemanha. Ele é completo: joga com os pés, tem bom posicionamento e é um líder em campo”, comenta o também goleiro Elias. E é na Copa do Mundo que os profissionais do gol são consagrados. Afinal, uma grande defesa pode garantir a taça; e uma falha, apenas, pode abalar um país inteiro.

Foto: divulgação Elias
Enfrentamento de gigantes | Foto: divulgação Elias

UM VACARIENSE EM CAMPO
Aos 22 anos, o jovem Elias representa Vacaria no disputado universo do futebol profissional. A sua carreira iniciou aos 11 anos, quando embarcou para Novo Hamburgo atrás do sonho de ser um profissional. “Viajava com a procuração dos pais, e minha mala era maior do que eu”, conta, rindo. O menino persistiu, mesmo morando embaixo de arquibancadas, em precárias condições.

Elias ingressou na escola do Guarani aos sete. Depois treinou no Glória e na Diprima-União Operária. Muito antes, porém, já batizava as paredes de sua casa. O pai Zigomar, que é pintor, nunca deu conta de conservá-las limpas.

“Quando ganhava uma bola de presente, ele dormia agarrado a ela, e passava o dia inteiro chutando. Elias nasceu para o futebol”,
conta Zigomar, orgulhoso do filho.

A ESCOLHA DA POSIÇÃO
“Comecei jogando como lateral esquerdo, mas não era bom na posição. Sempre faltava goleiro nos jogos escolares, e como eu era o mais alto, fui tentar o gol”, explica. Simpatizou com as traves e encontrou incentivadores: o tio Vanderlei e o preparador de goleiros Uilian.

Seu tio Vanderlei era goleiro num time amador de Sananduva. Assistindo ao tio, Elias respeitou mais a posição, muitas vezes reservada aos gordinhos ou menos habilidosos. Já Uilian identificou o potencial daquele menino e buscou ajudá-lo tecnicamente. “O Uilian começou passando treino em espanhol, acho que era pelos livros que lia”, conta, achando graça. “O treinamento de goleiros é uma das ciências mais recentes no futebol. Na época, só havia bibliografia estrangeira, e o acesso à internet era raro”, revela o professor. A paixão pelo gol foi tomando corpo, e não tardou para o menino Elias chegar fardado de goleiro à escola do Jardim América e levar consigo, em vez de livros, luvas na mochila.

A decisão pelo gol não é fácil. “O goleiro é a última barreira: se errar, é gol. Se o volante erra, tem o zagueiro; e se o zagueiro erra, tem o goleiro”, analisa Zigomar.

Anos mais tarde, o espanhol de Uilian ajudaria Elias a compreender o que os jogadores no Camp Nou falavam. O goleiro defendeu a Chapecoense em jogo amistoso contra o Barcelona em agosto de 2017.  A Chape perdeu por 5 x 0, mas os críticos enfatizaram que, se não fosse Elias, o time teria levado 10 gols. “Levei como um jogo normal. Claro que não era um jogo normal, porque estávamos enfrentando uma das maiores equipes da Europa. Mas eu estava concentrado, como sempre”, reforça o goleiro, que naquele dia tinha ninguém mais, ninguém menos do que Lionel Messi à sua frente.

O HIPERATIVO QUE SE DISCIPLINOU NO FUTEBOL
Concentrado como sempre? Pelos relatos da família, o caçula Elias era hiperativo e dificilmente ficava quieto. “Quando a mãe tinha que fazer algo em casa, colocava um filme para ele assistir e preparava pipoca. Não demorava para as pipocas estarem por toda a sala, e ele saltitando no sofá”, revela o irmão Maurício.

Elias é hiperativo até hoje. “Se estou de folga, não consigo ficar parado em casa”, pontua. O jogador gosta de andar de kart, jogar tênis, videogame, tomar chimarrão.

“Elias era muito agitado, incomodava muito a gurizada. Mas quando foi chamado para a responsabilidade, mostrou maturidade”, salienta Uilian, referindo-se à atuação do goleiro na Copa Internacional de Vacaria de 2010. Para Uilian, Elias era uma promessa porque era talentoso, determinado e psicologicamente equilibrado, característica fundamental para um jogador na sua posição.

“Acompanhei a sua evolução. Sabia que um dia iria vê-lo pela TV”, conta Uilian, emocionado.

E foi pela TV, em duas partidas do Juventude contra o Grêmio, que muitos vacarienses foram apresentados a Elias. O goleiro fez espetaculares defesas no Alfredo Jaconi, e segurou o placar fora de casa, levando o Juventude para a final do Gauchão de 2016 contra o Internacional.

Mas não pense que chegar ao grupo profissional foi fácil. Para se destacar no futebol é preciso, além de talento e muito treino, oportunidade.

“Eu era o terceiro goleiro do Juventude. Um deles se machucou e o outro foi vendido, foi a minha chance”, explica Elias, que não a desperdiçou.

TUDO VERDE: JUVENTUDE E CHAPECOENSE
Pelo Juventude, Elias também fez grande partida contra o Fortaleza, no Campeonato Brasileiro de 2016, garantindo a ascensão do time à Série B.  “Quando conseguimos subir com o Ju, senti que meu trabalho ali estava concluído. Aproveitei a oportunidade e fui para  o Chapecoense”, diz.

A Chapecoense estava montando o seu time com jogadores emprestados, logo após a tragédia aérea que desmantelou a equipe.  “Fui o segundo jogador a chegar. O primeiro mês foi bastante difícil, pois a cidade estava devastada”, observa. Os novos jogadores deram um novo sopro de vida a Chapecó. “A relação dos jogadores com os torcedores é muito próxima. Dia desses, a mãe do Gimenez, que faleceu no acidente, veio falar comigo na saída do treino. Ela me abraçou forte e disse que o sobrinho dela se espelha em mim”, comenta.

EM CAMPO
Apesar de bem acolhido no clube e com contrato firmado até 2021, Elias estava inquieto, pois mesmo com o desempenho crescente (era titular inquestionável no Juventude), foi escalado como terceiro goleiro.

“As pessoas sempre falam que têm muita corrupção na política. Imagina se conhecessem como funciona o futebol”, desabafa.

poucas semanas, decidiu jogar no Esporte Clube Vitória, da Bahia.

“Quero jogar. Não adianta encher o bolso de dinheiro e não ser reconhecido. Quero participar da história dos clubes”, destaca.

Dito e feito: agora estará em campo titular.

“Todo mundo quer jogar até os 40, eu me cuido para isso. Até os 33, quero ter vivido muitas coisas, atingido meus objetivos profissionais e estar em um grande clube”, determina. Elias é ambicioso e também almeja jogar fora do país. “Tenho essa vontade, todo jogador quer jogar uma Premier League. O futebol inglês é profissional, moderno, de metodologia inovadora, e tem outra atmosfera”, sustenta.

A atmosfera também é outra quando Elias vem a Vacaria e visita a gurizada que treina futebol.

“A pergunta frequente que ouço é: como se faz para ser um jogador? Respondo que Vacaria, hoje, não oferece toda a estrutura e recursos necessários. Mas reforço que é em meio às dificuldades que saem grandes campeões”, conclui.

Não é de duvidar que Elias chegue à Premier League. Determinação e competência ele tem. E torcida, também.

CURIOSIDADES

Vida familiar
Elias é filho de Zigomar e Izete Curzel. Tem dois irmãos, a Paula e o Maurício. É casado com Juliane e tem duas filhas, a pequenina Maria Clara e Jovana, sua enteada.

A saúde
Elias é muito disciplinado com a alimentação. Não ingere bebidas alcoólicas, tampouco refrigerante.

Apelidos
O único apelido que teve na infância foi Ferrugem, por causa dos cabelos um tanto ruivos. Quando começou a fechar o gol pelo Juventude, começou a ser chamado de Muralha.

Vacaria
Gosta da cidade e sente saudades da tranquilidade daqui, onde considera tudo perto.

A gurizada que quer jogar
O goleiro acredita que as escolinhas são fundamentais para despertar e descobrir novos talentos.

Cidadão Vacariense
Elias ganhou o título, concedido pela Câmara Municipal, em 2017, por se destacar no futebol profissional, incentivando outros atletas da cidade.

 

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