Entrevista: Juliano de Carvalho Lima

Conheça o vacariense que é doutor em saúde pública e integra a gestão da Fiocruz

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Há um ditado que diz que só damos valor para as coisas depois que as perdemos. Essa máxima vale para a saúde e, também, para as instituições de saúde. O Made In Vacaria conversou com Juliano de Carvalho Lima, diretor executivo da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz.

Juliano é vacariense, enfermeiro, mestre e doutor em saúde pública. Aos 41 anos, atua na gestão de uma das instituições de saúde mais respeitadas da América Latina e do mundo. Aproveitamos este momento de crescimento do movimento antivacina, e de aumento no potencial de surgimento de novos vírus e bactérias resultantes do desequilíbrio ambiental, para saber mais sobre o trabalho desenvolvido pela Fiocruz e por Juliano. Boa leitura e saúde para você.

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Juliano em frente ao castelo da Fiocruz, símbolo das ciências no Brasil. Ao fundo, busto do médico, sanitarista e pesquisador Oswaldo Cruz. Foto: Marcelo Bugard

Giana: É uma alegria sabermos que um vacariense integra a equipe diretiva da Fiocruz. Gostaria de pedir a você que apresentasse aos seus conterrâneos, de forma breve, o que é a Fundação Oswaldo Cruz, que afirma em seu vídeo institucional: “Você pode até não saber, mas carrega a Fiocruz dentro de você”.

Juliano: Certamente, a Fiocruz é um patrimônio da sociedade brasileira, porque está no nascedouro da ciência no Brasil. É a instituição brasileira mais lembrada quando se pede à população para citar uma instituição científica. E Oswaldo Cruz é o cientista mais lembrado.

A Fiocruz tem como centro da sua atividade a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico, a prestação de serviços em saúde e a formação de recursos humanos para a área da saúde. É a maior instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina, além de ser uma das maiores do mundo. Está no mesmo patamar que o Instituto Pasteur, na França, o Instituto de Saúde Carlos III, na Espanha, e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, Instituto Nacional de Saúde, nos Estados Unidos.

É uma instituição que tem 119 anos, está presente em 11 estados brasileiros. No Rio Grande do Sul, infelizmente, ainda não temos nenhum instituto, e talvez isso contribua para que as pessoas não a conheçam tanto. O mais próximo que chegamos daí é Curitiba, onde está um instituto de altíssima tecnologia: o Instituto Carlos Chagas.

Giana: É correto afirmar que a Fiocruz é uma instituição que busca assegurar a saúde dos brasileiros? 

Juliano: Sem dúvida. A missão institucional da Fiocruz é colocar a ciência e a tecnologia à disposição da promoção da saúde. Não é à toa que a Fiocruz pertence ao Ministério da Saúde, diferente de vários outros institutos que estão vinculados ao Ministério da Ciência e Tecnologia.  A Fiocruz antecede ao Ministério da Saúde, que nasceu na década de 1950. Desde o surgimento do ministério, ela está vinculada a ele e isso é uma marca distintiva. Não é a ciência pela ciência, é a ciência a favor da saúde.

O seu nascimento está relacionado às condições sociossanitárias no início do século XIX. A instituição se destacou muito rapidamente por ter contribuído para a eliminação de doenças da época como a febre amarela, a peste bubônica, a varíola – a partir da vacinação obrigatória. Nasceu com uma matriz que reúne ao mesmo tempo pesquisa, formação de pessoal para a saúde, produção de imunobiológicos e medicamentos, e prestação de serviços.

Uma marca recente da Fiocruz foi seu papel no enfrentamento da epidemia de zika, uma doença nova. A Fiocruz descobriu a relação entre o zika vírus e a microcefalia, e foi reconhecida mundialmente por isso, assim como nos primórdios na doença de Chagas.

Giana: Muita gente conhece a Fiocruz por causa das vacinas, mas ela vai muito além da produção de antivírus. Podemos afirmar que a Fiocruz olha para as doenças negligenciadas pela indústria farmacêutica, para aquelas que não interessam, não dão lucro a elas?

Juliano: É certo dizer isso, mas não só. Produzimos medicamentos para servir ao tratamento de populações negligenciadas.  As “bigfarmas” não se interessam em produzir medicações para doenças como a malária, a tuberculose, as leishmanioses, que assolam ainda muitos brasileiros, sul-americanos e africanos, pelo baixo valor agregado do produto. Elas se interessam em produzir medicamentos para o câncer, para as doenças cardiovasculares, de maior valor agregado. Sem sombra de dúvida, a Fiocruz tem um papel importante na produção de medicamentos dedicados a essas doenças. Mas não só.

Nós entramos recentemente em um campo muito disputado internacionalmente: o dos biofármacos, medicamentos de muito valor agregado, que são destinados à insuficiência renal crônica, à reação em caso de transplante. A importância, nesse caso, é menos no provimento, mais na regulação de mercado.

Quando a Fiocruz anunciou que entraria no mercado de antidiabéticos, por exemplo, o preço praticado pelas indústrias farmacêuticas junto ao Ministério da Saúde caiu pela metade. Esse dado é importante porque se o Estado brasileiro abdicar totalmente da produção, as indústrias internacionais terão condições de estabelecer e praticar o preço que quiserem.

Cumprimos um papel fundamental no atendimento a doenças negligenciadas e, outro, muito importante, na regulação de mercado. Esse é um ativo que o mercado brasileiro tem em caso de dificuldades de negociação com a indústria farmacêutica. E isso é muito importante neste momento porque há uma onda de privatização que questiona o papel que o Estado tem na produção. Hoje vivemos uma verdadeira guerra não só com as “bigfarmas” da Europa, mas também com China e Índia, que conseguem praticar dumping. Sem a Fiocruz, acabou a capacidade do Estado brasileiro negociar para reduzir preço.

Giana: Estamos falando do acesso a tratamentos de saúde?

Juliano: Exatamente.

Giana: A Fiocruz conta com 12 mil colaboradores. Se olharmos o número, isoladamente, sem apresentar tudo que a instituição faz, pode parecer muito. Eu trabalhei na Pfizer, indústria farmacêutica, que conta com 98 mil colaboradores. Você foi gestor de pessoas da Fiocruz. Como é coordenar os recursos humanos de uma instituição tão grande e com uma equipe tão diversa?

Juliano: Saí da diretoria de recursos humanos há alguns meses, após permanecer por nove anos. Foi um orgulho ter sido diretor de Recursos Humanos da Fiocruz. É um espaço com muitos desafios, pois reunimos, na mesma instituição, pesquisadores de nível mundial, tecnologistas, médicos, enfermeiros, biólogos, farmacêuticos, veterinários, uma gama de profissionais de A a Z, como costumo brincar, do arquiteto ao zootecnista.

A Fiocruz é uma instituição que tem duas escolas (uma técnica e outra de pós- graduação), dois hospitais (um voltado para doenças infecciosas e outro materno-infantil), um instituto nacional de controle de qualidade, uma série de institutos de pesquisa biomédica, duas fábricas  (de imunobiológicos e medicamentos), um instituto voltado para a área da cultura e  conservação do patrimônio cultural, enfim, a diversidade é muito grande. Coordenar essa diversidade de pessoas, com suas diferentes visões de mundo, e alinhá-las no mesmo caminho não é algo simples de se fazer, mas é bacana.

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Juliano foi diretor de Recursos Humanos da Fiocruz por 9 anos. Na função, coordenou 12 mil profissionais. Foto: Marcelo Bugard

Giana: Você ingressou na área da saúde através da Enfermagem. O que fez você optar pela saúde? Chegaste a atuar como enfermeiro?

Juliano: Entrei na faculdade muito cedo, com 17 anos. Sempre tive uma aptidão para tratar com as pessoas, cuidar das pessoas. Eu cuidei do meu avô, bisavô, e isso me orientou para o campo da saúde. A enfermagem foi a escolha daquele momento. Acho curioso que, quando converso com as pessoas, ninguém acerta a minha formação. Pensam que sou economista ou administrador.

Assim que me formei, fui trabalhar com saúde pública. Tive a oportunidade de fazer um estágio em medicina comunitária no Hospital Conceição, em Porto Alegre, por influência de uma amiga, hoje reitora da Universidade de Passo Fundo, enfermeira também.

Depois, trabalhei em Sananduva e logo coordenei o Programa de Saúde da Família, um programa de atenção primária à saúde, de base territorial, em que uma equipe multidisciplinar – com médico, enfermeiro e agente comunitário – trabalha o tratamento, a prevenção e a promoção de educação em saúde.

Giana: Interessante que hoje você esteja em uma área estratégica, tendo passado pela área operacional, na ponta do sistema de saúde.

Juliano: Eu tenho muita sorte nesse sentido, porque passei por todos os níveis do sistema de saúde. Nunca me esqueço das minhas atividades como enfermeiro da saúde da família. Era muito bom visitar as pessoas, vê-las melhorando. Depois, tive a possibilidade de trabalhar na Secretaria Municipal de Saúde de Niterói, também na Secretaria Estadual de Saúde, no Hospital de Bonsucesso, até chegar a Fiocruz. Essas experiências me possibilitaram ter um olhar abrangente sobre o sistema de saúde, e isso faz uma diferença grande hoje.

Giana: A mudança para o Rio de Janeiro foi planejada?

Juliano: Ela foi fruto de certo acaso. Assim que saí da faculdade, fiz um curso de especialização em saúde pública em Passo Fundo, em cooperação com a Escola Nacional de Saúde Pública, que é uma das unidades da Fiocruz. Fui fazer essa especialização, e um professor, o Francisco Javier Uribe Rivera, uma das maiores autoridades em planejamento em saúde, me incentivou a fazer uma prova para ingressar no mestrado. Ele me disse que, se eu passasse, me orientaria. Nunca tinha pensado nisso, pois não conhecia ninguém no Rio. Fiz a prova e passei. Meu plano era ficar apenas o primeiro ano no Rio, e realizar o trabalho de campo no Rio Grande do Sul. Mas acabei arranjando trabalho e fui ficando. Estou no Rio desde 2001, sou um “cariúcho”.

Giana: Muitos de nós ouvimos falar na Fiocruz quando há um alerta de epidemia como tivemos com a dengue e a zika. O que a Fiocruz está fazendo hoje? No que devemos prestar atenção?

Juliano: As arboviroses (doenças transmitidas por insetos) são realmente um grande desafio, e provavelmente vão manter, infelizmente, a Fiocruz presente nos noticiários, porque as condições socioambientais do Brasil são muito favoráveis à eclosão desse tipo de problema. A dengue tende a permanecer como um problema muito sério.

As mudanças ambientais que temos sofrido, principalmente no modelo de desenvolvimento econômico pouco atento ao meio ambiente, tendem a gerar novas relações entre os homens, os vírus e as bactérias. É o que vemos na Amazônia com grandes empreendimentos sem preocupação com a sustentabilidade ambiental. Estamos vendo a introdução de novos vírus como o Oropouche. Mayaro e Febre do Nilo são algumas das possíveis novidades. A introdução de novos agentes etiológicos é um ponto que merece atenção.

Temos outros desafios muito importantes no campo da saúde pública como a questão da violência, que é um problema grave de saúde pública. No Rio de Janeiro, morre mais gente por ano do que na guerra da Síria. E do ponto de vista da Fiocruz, isso não é só uma questão de polícia, é de saúde pública.

Outro alerta é do Centro Latino-americano de Estudos de Violência e Saúde, o mais avançado do mundo no gênero. Anualmente, morrem no Brasil cerca de 50 mil pessoas em função de acidentes de trânsito. Este é um campo de saúde coletiva onde a Fiocruz não é muito conhecida, mas em que tem uma ação preponderante.

Giana: Quando pensamos em saúde, geralmente pensamos nas questões biológicas, não sociais. Como uma instituição que pesquisava bactérias e vírus, apenas, passou a falar de violência no trânsito?

Juliano: Muito boa, essa pergunta, porque dá a oportunidade de explicar essa trajetória da saúde pública, e a Fiocruz é um pouco da expressão disso.

Há uma transição do que a gente costuma chamar de saúde tradicional para a saúde coletiva. A própria evolução da medicina mostrou que existe uma série de condicionantes que são o que chamamos de determinantes sociais da saúde. O que diferencia as duas? É justamente estes outros olhares que introduzem a abordagem, que ganhou corpo inclusive nas manifestações na ONU, que diz que saúde não é apenas a ausência de doença, é ter boas condições de vida, bem-estar, emprego, moradia, enfim.

Estudos também ajudaram muito na evolução da compreensão da saúde. Por exemplo, hoje sabemos que uma variável fundamental na mortalidade infantil é a educação da mãe. O grau de instrução da mãe explica grandes diferenças no adoecer e morrer das crianças. Então, há uma relação entre a condição social da mulher e a mortalidade infantil.

A saúde coletiva olha para além dos determinantes biológicos, considera os determinantes sociais. No caso da violência do trânsito, os acidentes matam muito e incapacitam muito as pessoas.

Giana: Se levarmos em consideração os determinantes sociais como o desemprego e o meio ambiente, podemos dizer que a nossa saúde está comprometida?

Juliano: Podemos, se considerarmos as potencialidades que um país como o Brasil tem para atuar no campo da saúde. O país não é pobre, estamos entre as 10 maiores economias do mundo. Certamente, o Brasil tem condições de cuidar melhor da saúde de seus cidadãos.

Mas também é verdade que nós temos tido evoluções importantes nos indicadores de saúde, e isso é fruto de uma série de políticas no campo da saúde. Nós temos gravíssimos problemas, mas temos também muito reconhecimento.

O Brasil tem alguns programas de excelência mundial, como a estratégia de enfrentamento ao tabagismo. O país conseguiu alterar significativamente os agravos relacionados a partir de uma atuação intensa da saúde no âmbito legislativo, como a proibição de fumar em lugar fechado.  Outro programa muito reconhecido é o DST/ AIDS. O Brasil foi o primeiro país do mundo a garantir a universalidade do tratamento medicamentoso aos pacientes com HIV. Nenhum país antes garantiu a gratuidade do medicamento antirretroviral. E a Fiocruz teve um papel muito importante nisso porque foi a partir da produção da medicação, da quebra da patente, realizada pelo Ministério da Saúde, que houve a garantia de acesso aos medicamentos.

O Programa Nacional de Imunizações também é um exemplo, embora tenha sofrido graves problemas, recentemente. É reconhecido pela ONU como o melhor do mundo. O Programa da Saúde da Família é um exemplo, o sistema de transplantes no Brasil é muito elogiado. Então, temos um sistema que garante grandes avanços, mas, ao mesmo tempo, deixa faltar uma penicilina na unidade básica de saúde.

Mas não é equivocado dizer que a saúde está doente, porque vivemos uma série de movimentos contrários à universalização do SUS, e de arroxo fiscal, que impacta diferentemente na resposta do sistema de saúde às demandas que são mais complexas.

Giana: Já que falamos em SUS, os medicamentos distribuídos pelo SUS são feitos pela Fiocruz?

Juliano: Nenhuma indústria farmacêutica, nem mesmo a Pfizer, garantiria o abastecimento de saúde para uma população de 200 milhões de pessoas. A Fiocruz responde pela maior parcela pública, mas não é o único laboratório público produtor de medicamentos. Há muitos outros, inclusive vinculados às forças armadas. Se considerarmos Manguinhos e a Farmanguinhos, somos a 8ª maior farmacêutica nacional, mas não tem comparação com as “bigfarmas”.

Vale destacar que temos um papel importante em segmentos específicos como o dos antirretrovirais (programa DST/AIDS), no qual o abastecimento é todo da Fiocruz. Em relação às vacinas, produzimos a maioria das vacinas do Programa Nacional de Imunizações.

Giana: Recentemente, a ONU afirmou que o movimento antivacina está entre os 10 maiores desafios de saúde atuais. O que você diria às pessoas que têm medo de fazer vacina?

Juliano: É inacreditável, impressionante que, em pleno século XXI, estejamos vivendo essa onda de questionamentos a algo tão consolidado e com tanta evidência de comprovação de efeito. As vacinas talvez tenham sido, no campo biomédico, o que mais impactou a vida das pessoas.

O Brasil tem todas as condições ambientais para o retorno da poliomielite, pois ela é fortemente influenciada pelas condições ambientais, principalmente de saneamento. E o Brasil só consegue manter extinta a poliomielite graças a uma cobertura vacinal que é imensamente superior à média de outros países.

Então, eu diria às pessoas que têm embarcado no movimento antivacina que o risco é muito grande e é coletivo. Diria que não fazer a vacina é colocar em risco não apenas a sua vida, mas a de seus familiares, amigos e vizinhos. Sugiro que as pessoas entrem no site da Fiocruz para entender melhor isso.

Giana: Atualmente, você é diretor executivo da vice-presidência institucional. O que faz, precisamente?

Juliano: Ajudo na coordenação executiva de administração, uma área que envolve toda a infraestrutura, gestão de pessoas, tecnologia da informação. Sou responsável pela política de integridade, riscos e controle interno. Coordeno a área de compliance, que engloba ouvidoria, auditoria e corregedoria. Trabalho com a parte mais pura da administração da Fiocruz, voltada para que as coisas operem corretamente.

Também sou professor da Escola Nacional de Saúde Pública, agora com uma carga reduzida em bancas de mestrado e doutorado.

Giana: Quando pesquisamos a história da Fiocruz, somos apresentados a Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Sergio Arouca, entre muitos outros cientistas. Quem são os grandes pesquisadores da Fiocruz hoje? De quem iremos ouvir falar daqui a pouco?

Juliano: Nós temos grandes pesquisadores. Vou classificá-los em dois grupos: os da área biomédica, de quem normalmente ouvimos falar, e os jovens muito promissores que devem ser conhecidos em pouco tempo.

No Paraná, contamos com um grupo de cientistas jovens no campo da biotecnologia, da biologia molecular. Esse grupo do Paraná, por exemplo, desenvolveu um kit que faz diagnóstico rápido diferencial de dengue, chicungunya e zika: em menos de cinco minutos; antes, levava dois dias para o diagnóstico diferencial. Esse kit já está em todo o sistema de saúde. Na área de cirurgia, uma cola de fibrina promete revolucionar a área. É um cicatrizante, que tende a dar muito certo.

Cito aqui Fabrício Marchini, Luciano Moreira, Maurício Barreto, Ricardo Godói e o Rômulo Paes.

Temos, também, um grupo muito bom na saúde ambiente, pesquisadores que hoje já são muito preparados como o Guilherme Franco e o Leo Heller, talvez a maior autoridade mundial em estudos sobre água e saúde.

Tem gente muito boa trabalhando aqui, e vamos ouvir falar de muitos deles, em pouco tempo.

Giana: Um dos papéis da Fiocruz é formar profissionais para a área da saúde. Como se dá o ingresso na instituição?

Juliano: Existem três principais mecanismos de ingresso. Concurso público é um deles. Nós tivemos a felicidade de os governos recentes investirem em concurso público. Isso colocou a Fiocruz em outro patamar, pois tínhamos uma força de trabalho envelhecida. Tivemos o ingresso de mais de 3mil pessoas, entre jovens, tecnologistas e pesquisadores que vão garantir a sustentabilidade da instituição por um bom tempo.

Além do concurso, a Fiocruz seleciona pesquisadores visitantes através de editais. Muitos jovens doutores e pesquisadores de maior envergadura ingressam dessa forma. Também há a contratação de profissionais de nível técnico, mediante terceirização, o que representa hoje um contingente grande do quadro de pessoal.

Se considerarmos as escolas, é importante destacar que a Fiocruz forma profissionais do Brasil e de toda a parte do mundo. São 11 mil pessoas pós-graduadas, principalmente através do ensino à distância, por ano.  Certamente, aí no Rio Grande do Sul tem muitos profissionais que passaram, em algum momento, pelos bancos da Fiocruz.

Giana: Vocês são muito demandados pelas instituições de saúde? A Fiocruz é mais propositiva ou reativa às demandas?

Juliano: Do ponto de vista da proposição, da agenda de pesquisa, a Fiocruz é o grande motor, porque é aqui que os estudos são realizados. Mas a Fiocruz pertence à saúde, então, é bastante demandada, principalmente para a formação de pessoas.

Um exemplo. Durante a epidemia de zika, o ministério pediu à Fiocruz que organizasse um curso rápido para o manejo clínico de crianças com microcefalia. Rapidamente, conseguimos montar esse curso em uma plataforma EAD e formamos mais de 3mil médicos e  profissionais como enfermeiros em menos de seis meses.

No campo da vigilância, a Fiocruz tem o maior número de laboratórios-referência para diagnósticos de referência nacional e mundial. Se surge uma suspeita de ebola, por exemplo, a Fiocruz é a referência, assim como é nos casos de gripe aviária.

Giana: Ou seja, a Fiocruz é acionada nas ameaças e urgências em saúde coletiva. É a instituição que tem know-how para agir e capacitar profissionais.

Juliano: Exatamente.

Atualmente Juliano é diretor executivo da vice-presidência

Giana: Como podemos avaliar ou mensurar o investimento que é feito na instituição versus o retorno que ela dá?

Juliano: Esse é um dos nossos principais desafios institucionais. Recebi esta demanda da Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz, juntamente com outros colegas: produzir uma mensuração do retorno da Fiocruz à sociedade e, também, comunicá-lo, de maneira fácil.

Somos acostumados a traduzir o que fazemos em quantidade. Somos o maior produtor de imunobiológicos, produzimos milhões de unidades farmacêuticas, mas isso dialoga pouco. É possível traduzir o retorno da pesquisa porque os indicadores são científicos: número de publicações, citações. Conseguimos medir no meio científico, acadêmico. Mas quando falamos em retorno das tecnologias colocadas no mercado como o kit diagnóstico diferencial, não é simples dizer quantas vidas foram salvas a partir daí, pois são muitas as variáveis que interferem na mortalidade.

Giana: Comentar dos avanços talvez seja a forma mais fácil de demonstrar a importância da instituição. 

Juliano: A zika é um bom exemplo para entender a Fiocruz, a nossa forma de organização, todos os nossos braços de atuação, o que é o grande diferencial.

Desde que houve a suspeita de que a microcefalia estava relacionada ao vírus da zika, a Fiocruz entrou em ação. A suspeita apareceu em vários lugares: no Nordeste e, também, em vários lugares, no Rio Grande do Sul. A área da pesquisa básica, biomédica, começou então o seu trabalho: identificar o vírus, isolá-lo, e mostrar que ele tinha capacidade de romper o sistema placentário.

Depois entrou o braço do desenvolvimento tecnológico, o qual, através de pesquisas de biologia molecular, desenvolveu o kit diagnóstico de 5 minutos. A partir da criação do kit, foi acionada a área de produção. A Fiocruz poderia ter desenvolvido e outra indústria farmacêutica ter produzido em larga escala, mas tínhamos a capacidade de produzir. O kit, disponível em toda a rede pública, era um passo importante, mas só isso não era suficiente. Os profissionais tinham de ter a capacidade de manejar esses pacientes com microcefalia, entrou aí o braço da formação e educação em saúde, capacitação de profissionais.

Além de pesquisarmos, desenvolvermos o kit, produzirmos, formamos gente, também realizamos a assistência médica, tratamento nas duas instituições hospitalares, passando a ser referência no atendimento da microcefalia. Tal assistência tem dupla função: serve para prestar atendimento médico e também gerar mais pesquisas, para entender melhor o que acontece.

Além disso, a zika trouxe um desafio à área de comunicação, que é pouco conhecida, mas muito importante. Ela produz comunicação qualificada em saúde através de uma série de dispositivos, como tv, revistas, produtora de vídeos, entregando à sociedade informação de forma qualificada e em linguagem simples.

A diversidade de áreas de atuação é que faz da Fiocruz uma instituição singular, que atua da inovação à produção, passando pelo ensino, assistência, informação e comunicação. 

Giana: Como a Fiocruz é vista nacional e internacionalmente?

Juliano: A Fiocruz tem uma reputação muito elevada. Está entre as principais instituições de ciência e tecnologia em saúde, basta ver o quanto é demandada. Até Albert Einstein nos visitou.

Recentemente, houve a Assembleia Mundial de Saúde. A delegação brasileira foi formada por autoridades do Ministério da Saúde, incluindo o ministro, e a presidente da Fiocruz. A grande celebridade é sempre a presidente da Fiocruz.

No Brasil, o grau de conhecimento das pessoas em relação à Fiocruz é muito diverso. No âmbito governamental, ela é muito conhecida, junto aos profissionais de saúde, também. Na sociedade em geral, menos.

Entre aqueles que conhecem a Fiocruz, a sua reputação é impressionante, muito boa, e melhor em estados onde ela tem pacientes e estudantes. Mas muita gente nem sabe que é uma instituição pública, que é parte do Sistema Único de Saúde, porque associam coisas ruins ao SUS. Essa confusão é parte da incompreensão da real dimensão do SUS, de tudo que faz.

Giana: Falar em uma instituição de 119 anos é algo raro. Pela idade, muitos podem imaginá-la arcaica. 

Juliano: O que distingue a Fiocruz é sua capacidade de se reinventar. Ela nem sempre teve essa pujança, houve altos e baixos. Durante a ditadura militar, tivemos um evento que a colocou no ostracismo: o caso do massacre de Manguinhos, em que houve cassações, e pesquisadores foram sumariamente aposentados. Há uma manchete de jornal que expressa bem como a Fiocruz foi vista desde a ditadura até os anos de 1980: “Um cadáver insepulto na Avenida Brasil”. Depois disso, com uma epidemia de meningite, o governo militar precisou recorrer à Fiocruz, que então retomou o seu papel e se reinventou.

É muito importante para nós podermos falar sobre a Fiocruz porque, embora ela tenha essa representatividade toda, seja conhecida no âmbito governamental e acadêmico, é ainda pouco conhecida pela sociedade brasileira, e é um grande patrimônio. São poucas as instituições que sobrevivem 119 anos nesse país e com um reconhecimento internacional incrível.

Giana: Na sua opinião, qual o principal desafio de saúde pública que temos hoje no Brasil?

Juliano: Temos desafios importantes no campo da violência e saúde. Embora a mídia dê muita atenção para a zika e a chicungunya, morre-se muito mais por acidentes de trânsito e violência em geral. Os acidentes de trânsito matam muito e incapacitam muito. Além de matar muito, muita gente se torna deficiente físico, o que gera uma carga elevada sobre o sistema de saúde em função das incapacidades geradas. Os nossos índices, se comparados a qualquer país da América do Sul, são alarmantes; se comparados aos da Europa, nem se fala. É como se estivéssemos em guerra. É um dado importante porque não fazemos essa associação entre violência e saúde, fazemos entre dengue e saúde.

Além disso, temos as doenças com forte relação ambiental, causadas por arboviroses e agrotóxicos. Recordo aqui de um estudo recente entre os agricultores gaúchos e a incidência brutal de câncer.

Giana: Para a gente finalizar, não posso deixar de perguntar qual é a sua relação com Vacaria hoje?

Juliano: Tenho familiares na cidade, primos e tios. Obviamente que, com as tecnologias, a gente dialoga mais, remotamente, mas eu tenho um conjunto de pessoas muito queridas. Em julho, eu devo ir a Vacaria. Tenho vínculos que se formaram a partir do futebol. A ideia é visitar os parentes e jogar uma partida de futebol, como nos velhos tempos.

Giana: Quem sabe aproveitamos sua vinda para você dialogar com outros profissionais de saúde?

Juliano: Será um prazer. Sempre que sou demandado, estou à disposição.

 

Por Giana Pontalti | julho de 2019

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