Fazenda do Socorro: uma volta ao século XVIII

Uma das propriedades mais antigas de nosso estado é um ponto turístico essencial para quem gosta de história e da cultura do campo.

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Dizem que é preciso conhecer o passado para compreender o presente. Em Vacaria, ainda temos a chance de vivenciá-lo de perto. A Fazenda do Socorro, patrimônio histórico e cultural de nosso estado, representa a memória viva de nossa região e do Rio Grande do Sul. Localizada a 20 km do centro da cidade, ela marca o povoamento, a cultura e o progresso dos campos de cima da serra quanto à agricultura, à fruticultura e à pecuária.

Fazenda do Socorro, CTG Porteira do Rio Grande na Fazenda do Socorro
Uma Fazenda que faz parte da história dos tropeiros gaúchos | Invernada do CTG Porteira do Rio Grande | Foto: Giana Pontalti

Quem nos conduz a uma visita nesse lugar é dona Ivete de Rossi, que junto com seu esposo administra a sede de uma das fazendas mais antigas e importantes do estado, um ponto turístico fundamental para a compreensão do que a região de Vacaria foi, é e ainda tem por crescer.

A família de Rossi trabalhava exclusivamente com a agricultura. Mas em 2006, ao adquirir a propriedade, percebeu que junto do cultivo dessas terras havia também a missão de abrir as portas da fazenda para quem desejasse “respirar” os resquícios bem conservados de uma trajetória que iniciou no século XVIII.  A história da Fazenda do Socorro começou no Brasil colônia. Na época, a coroa portuguesa cedia terras – por meio de concessões chamadas sesmarias – a quem se propusesse a ocupar, povoar e explorar as riquezas delas e, sem dúvida, pagar impostos ao rei.

O início: um refúgio para os tropeiros

Foi um tropeiro paulista, José de Campos Bademburgo, quem descobriu as terras da hoje Fazenda do Socorro. Ao se dirigir às missões, durante suas viagens, fazia dela o seu pouso, passando depois a reclamar a posse do local à coroa. Em 1770, as terras das sesmarias foram cedidas oficialmente a ele.

Por isso, quem visita o local nesses dias ainda consegue compreender um pouco de como era a vida naquela época. Os tropeiros, ao enfrentar as noites gélidas de viagem, encontravam um refúgio peculiar no meio do trajeto rotineiro. A Fazenda do Socorro era o esteio desses viajantes, um recanto de calor para apaziguar e descansar depois de dias no lombo da mula ou do cavalo.

Imagens do museu da Fazenda | Crédito: Caroline Corso

As famílias e a construção da fazenda modelo

A Era dos Bademburgo foi cheia de tragédias e desentendimentos familiares devido a heranças, ocorrendo, até mesmo, assassinatos. Só em 1903 a propriedade abandona esse período sombrio, quando Marcos Flores de Noronha, oriundo de São Sebastião do Caí e com propriedades no Uruguai, adquire a fazenda e inicia uma nova era no local, trabalhando para valorizá-la.

Em 1929, com a morte de Marcos, a fazenda passou para seus filhos Lourdes e Abelardo. No entanto, foi sua filha mulher, Lourdes, quem tomou a frente da administração do patrimônio, tornando-se responsável pelo desenvolvimento econômico e sustentável das terras. Ela reestruturou todo o espaço, transformando-o em propriedade rural modelo. Lourdes reformou a casa antiga de 1770, ampliando essa habitação ao estilo arquitetônico português. Além disso, construiu uma capela em homenagem à padroeira Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, trazendo o altar inteiro de Porto Alegre.

Construções preservadas da Fazenda | Foto: Giana Pontalti

Dona Lourdes era uma mulher culta, empreendedora e viajada. Trouxe diversas ideias da Europa para implementar em suas propriedades. No Rio Grande do Sul, foi a pioneira do cultivo de maçã, peras e pequenos frutos. Na gestão dela, a Fazenda do Socorro foi a primeira fazenda do estado a implantar pastagens artificiais e ter instalações completas para a fabricação de laticínios e conserva de carne em condições higiênicas e modernas. Além disso, o local também foi vanguarda na implantação de processos avançados de zootecnia, agricultura e fruticultura.

Dona Lourdes: uma empreendedora à frente da Fazenda

É impossível falar da Fazenda do Socorro sem citar Dona Lourdes, afinal, foi ela a responsável por iniciar o desenvolvimento e conservação de toda a história desse patrimônio. “A propriedade era autossustentável, tudo o que era preciso consumir era feito aqui. A produção era exportada, atendendo o cenário nacional e internacional. Dona Lourdes tinha muita visão”, detalha Ivete de Rossi, atual diretora da fazenda que hoje preserva a história da líder ilustre.

Ivete mostrou à reportagem do Made in Vacaria um museu cuidadosamente organizado por Dona Lourdes: há diversos utensílios da lida de campo, roupas e outros acessórios que guardam a memória da época. “Dona Lourdes tinha um interesse imenso pela história e por preservá-la”, esclarece Ivete enquanto aponta fotografias da fazendeira na entrada do museu.

Museu da Fazenda | Foto: Caroline Corso

Visitas guiadas e agendamentos

A Fazenda do Socorro é uma propriedade privada e voltada especialmente à agricultura. Por isso, a família de Rossi prefere organizar visitas por meio de agendamentos para atender os turistas com a atenção merecida. O custo da entrada é de R$ 10 e o visitante dispõe de visita guiada na trilha turística, que envolve a Capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a parte externa da casa principal, o salão de eventos, o mangueirão e o museu da fazenda.

Os agendamentos são feitos pelo telefone e por WhatsApp: (54) 9946.5399. Além disso, a fazenda pode ser o cenário de belas fotografias e eventos, a partir de reservas também.

Agendamentos: (54) 9946-5399 | Valor: R$ 10 por pessoa. 

Curiosidades

As sesmarias eram um tipo de medida utilizada por Portugal na distribuição das terras de suas colônias, antes mesmo do descobrimento do Brasil. Elas compreendiam cerca de 13 mil hectares.

O símbolo da Fazenda do Socorro surgiu depois de 1900 e foi doado pelo primeiro bispo do Rio Grande do Sul, Dom Feliciano. A ideia foi de Dona Lourdes, que era muito religiosa, em homenagem ao Pároco. O símbolo leva as iniciais DF.

A fazenda já recebeu a visita da Princesa Isabel, bisneta de Dom Pedro II. Dona Lourdes e ela eram amigas.

Dona Lourdes escreveu livros, como “Europa nos Anos Dourados”, sobre viagens ao  velho continente, e “Antigas Fazendas do Rio Grande do Sul”, que que ajuda a entender como essas propriedades fizeram parte do desenvolvimento de nosso estado.

Sob o comando de Dona Lourdes, a fazenda tinha um código de regras que regulava, por exemplo, como os funcionários deveriam se vestir, e se portar.  Aos funcionários homens era proibido ter cabelos longos.

Referências:

Fazenda do Socorro: Vacaria/RS. Pesquisa e textos por Maria Neli Ferreira Borges e Fernanda Lisboa Vieira.

por Caroline Corso | agosto de 2019

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