‘Los hermanos’ que passam por Vacaria

Argentinos rumo ao litoral

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Eles chegam em comboio, falando alto, bem-humorados. É a autoestima argentina marcando território em solo brasileiro. Vieram aos milhares para os jogos da Copa em Porto Alegre. Trouxeram alegria, muita torcida e, obviamente, uma pitada de provocação. Eles vêm de “montão” às praias catarinenses todo o verão. E na passagem rumo ao litoral, invadem nossa cidade, aquecendo a economia local. Dormem, jantam, e abastecem aqui. São bons clientes, pouco exigentes, simples. A única coisa que pedem é água quente. Afinal, o mate é companhia de viagem.

De dezembro a fevereiro, é comum avistarmos carros de placas pretas atravessando Vacaria. Depois de percorrerem cerca de 1.200 quilômetros, os argentinos param aqui. Em alguns hotéis, los hermanos são responsáveis por 70% da ocupação. São fundamentais para o faturamento trimestral. Mas já se hospedaram mais. O peso, desvalorizado em relação ao real, e a abertura de novas estradas diminuíram a passagem deles. “Uma vez não tinha GPS, tampouco Google Maps. Os mapas impressos só indicavam as principais vias, e Vacaria estava entre elas. Agora, eles vão à Lagoa Vermelha e cortam por Barracão”, explicou Marieli, gerente de hotel.

Embora o câmbio não esteja favorável, tudo indica que eles continuarão a vir, principalmente aqueles que partem de Entre Ríos e Corrientes, estados vizinhos ao nosso.

“Em nossas províncias só temos praias de rio. E as águas da Argentina são muito frias”, explica Adrian, em sua primeira viagem ao Brasil.

Adrian passou férias na Barra da Lagoa junto à esposa, Rocío, e dois filhos pequenos. “Fiquei encantada com as praias, a vegetação e, aqui em Vacaria, com as flores no meio das ruas”, comentou Rocío. A família descobriu Vacaria por acaso: quando o sol começou a se pôr, pararam na primeira cidade à frente.

A maioria dos Argentinos, porém, chegam a Vacaria de forma planejada. É o caso de Pablo, que costuma pousar aqui.

“Entramos no Brasil por São Borja, e, na primeira vez que viemos, ficamos sabendo de Vacaria por sites. Continuamos a vir por esta rota por causa das montanhas. Gostamos da paisagem até Florianópolis”, revela Pablo.

Depois de mais de 20 anos explorando o nosso litoral, os argentinos criaram sites e blogs informativos, como o brasildeauto, onde trocam informações sobre aluguéis, rotas, condições das estradas, preços dos combustíveis, exigências legais, além de dicas. Tudo isso para garantir uma viagem segura e sem surpresas.

“Viajamos em comboio por segurança. Somos aconselhados pelo nosso governo a vir em grupo. Houve uma época em que muitos de nós sofremos assaltos”, revela Pablo.

“Eles são muito organizados. Sabem as distâncias entre as cidades, onde parar, onde abastecer, a situação das estradas, sabem até que estão cobrando ‘pedágio’ para entrar em Bombinhas”, conta Lidiane, recepcionista de hotel.

O mate e a “medialuna’

Planejamento parece mesmo ser a palavra-chave da viagem dos argentinos. Quando chegam a Vacaria, geralmente é noite. Vão direto descansar.  Se saem dos hotéis é para jantar, quase sempre pizza. Logo cedo pegam a estrada. Todo o tempo de viagem é cronometrado. “Faz sete anos que paro aqui, e não conheço Vacaria, não sei quantos habitantes têm, o que a cidade produz”, confessou Pablo. Para ele e muitos outros argentinos, Vacaria consta no plano de viagem como cidade dormitório. O tempo curto dificulta o contato com a cidade. A língua, também.

“Aqui ninguém fala espanhol.  Arriscam um ‘portunhol’, mas nos entendemos mesmo é na mímica. Apesar de os brasileiros não falarem nossa língua fluentemente, se esforçam para nos entender, principalmente nas praias. Somos sempre recebidos com amabilidade”, conta Pablo.

O Papa Francisco é argentino

Os argentinos vêm ao Brasil há bastante tempo, mas pouco sabem de nossa cultura. Perguntei a Rocío o que conhecia do Brasil, e ela respondeu: as praias, o Rio de Janeiro, e Roberto Carlos – nada mais. A pergunta aguçou a curiosidade dela, que logo me devolveu: “E você, o que sabe da Argentina?” Arrisquei dizer que alguns de nós conhecemos Buenos Aires, Bariloche e Mendoza. O tango, Piazzolla, a esperta Mafalda, Maradona e Messi, além do revolucionário Che Guevara – que muitos pensam ser cubano – e o Papa.

Mafalda, uma das personagens mais conhecidas das charges argentinas

Conversando com Pablo, identificamos o que os gaúchos e argentinos têm em comum. Primeiramente, o chimarrão, embora eles o apreciem doce. A paixão pelo futebol. “E a divindade”, ousei dizer, “porque se o Papa é argentino, Deus é brasileiro”.  A singela piada arrancou uma gargalhada do hermano.

CURIOSIDADES

*De cada 10 brasileiros que sobem o Brasil, 7 vêm de carro. O mate argentino é feito com erva grossa. É tradição apreciá-lo com açúcar. No norte do país, tem também o tererê, o mate gelado.

*Mercedes Sosa e Fito Paez estão entre os músicos mais admirados.

*Destinos turísticos argentinos imperdíveis: Buenos Aires, Mendoza, Ushuaia, Mar del Plata e Glaciares como Perito Moreno, em Calafate.

*O artista Quino criou a Mafalda, uma das personagens mais famosas na Argentina e no mundo.

Coluna publicada originalmente no Correio Vacariense em março de 2015, na coluna VAI E VEM. 

 

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