José de Jesus Peixoto Camargo, médico por vocação

O talentoso médico, professor e escritor que Vacaria exportou.

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Ao chegar ao Pavilhão Pereira Filho, no complexo hospitalar da Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre, sentei-me alguns minutos para aguardar a entrevista agendada para as 15h. Aproveitei para conversar com Elisandra, que esperava no saguão. Ela respirava com a ajuda de um aparelho, e carregava um cilindro de oxigênio, mas estampava um sorriso vasto no rosto, pois naquela sexta-feira, três pacientes receberiam novos pulmões, algo raro para um dia só. Vibrei com Elisandra, mas temi não poder entrevistar o talentoso chefe de cirurgia torácica, que certamente estaria em ação.

A Santa Casa de Porto Alegre é o principal centro de referência em transplantes de pulmão no Brasil, acompanhada de centros de São Paulo e Fortaleza. À frente de todo o trabalho, um filho de Vacaria: José de Jesus Peixoto Camargo.

“Entre a primeira percepção de falta de ar e o transplante se vão quase 10 anos. Não existe paciente mais feliz e agradecido do que o transplantado bem-sucedido, porque o ganho de fôlego é instantâneo. O paciente fica louco, pois não sabia mais como era viver”, revela o especialista.

Segundo o médico, próximo à realização do transplante, os pacientes têm, em média, apenas 14% da capacidade respiratória. “É uma miséria, o paciente tem dificuldade até para clicar no botão do controle remoto da TV”, explica.

J.J. Camargo, ou simplesmente Camargo, como é conhecido, é um dos talentos que Vacaria exportou. É médico, professor e escritor. Dirige o Centro de Transplantes e chefia a equipe de Cirurgia Torácica da Santa Casa. Pioneiro, assinou o primeiro transplante de pulmão do Brasil e América Latina, em 1989.

A ESCOLHA DA MEDICINA | A FAMÍLIA CAMARGO
“Eu nasci para ser médico. Queria ser como o doutor Cássio (Costa), o médico da família, ele era tão bacana”, diz. O curioso José, ainda menino, abria as bonecas da irmã Maria Helena para saber como eram por dentro.

J.J. nasceu em agosto de 1946. É filho de Deoclécio e Zeli, fazendeiros. Recebeu, como primeiro nome, o do avô José. O Jesus resulta de um momento de aflição da mãe, minutos antes de dar à luz o segundo filho. “O primeiro parto, o da Maria Helena, tinha sido muito difícil. A mãe estava com muito medo. E, daí, encontrou o padre Geraldo, que disse a ela que tudo daria certo e que o menino ganharia o nome de Jesus”, revela, achando graça.

Camargo é um sobrenome tradicional em Vacaria. A família é conhecida na cidade pelas suas mentes férteis. Além de Maria Helena, J.J. é irmão do professor Homero, ex-diretor do campus da UCS em Vacaria; e do Décio, o presidente do Glória.

“A minha infância foi muito feliz. As refeições lá em casa eram uma festa, porque todo mundo tinha uma história para contar”, recorda. “J.J. era muito sapeca quando menino, e ‘meio gênio’”, diz Décio.

A garotada morava na fazenda, a 36 quilômetros do centro da cidade. Foi alfabetizada em casa. J.J. ingressou no colégio São Francisco no 4º ano, e fez o ginásio – hoje ensino médio – no colégio Rosário em Porto Alegre. “Eu fiz o primeiro e segundo ano do ginásio compenetradíssimo. Mas no terceiro, descobri a sinuca, e quase fui para o espaço”, revela. Ele tomou jeito quando foi se inscrever no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

“Quando recebi o programa com os tópicos que cairiam no vestibular, surtei. Percebi que, de uns 30% deles, nunca tinha ouvido falar. Nas férias, voltei à fazenda e estudei 16 horas por dia, até ficar meio zonzo. Fiquei 21 dias sem ir à cidade. Todo mundo dizia para eu não me preocupar porque era moço, e se não passasse, teria outro ano para tentar. Eu detestava ouvir isso, pois não imaginava perder um ano”, confessa.

Ao embarcar para Porto Alegre, para prestar o vestibular – que na época já era bastante concorrido, pois havia poucas escolas no Brasil – J.J. recebeu o incentivo do pai: “Ele me abraçou forte – e eu adorava o cheiro do meu pai – e disse: ‘Vai lá e mostra que aqui tem pedigree’, revela orgulhoso. O jovem subiu no ônibus, chorou por um bom tempo, e arrasou nas provas.

O DESAFIO COMO PROPULSOR
Em 1970, J.J. Camargo graduou-se em medicina pela UFRGS. Fez residência em cirurgia geral, depois torácica, e especialização na renomada Clínica Mayo, nos Estados Unidos, onde é “fellow”. Ao finalizar os estudos na Clínica, enfrentou um dos primeiros grandes dilemas de sua vida: decidir voltar à Santa Casa ou ficar no exterior. “A questão era chegar aqui e ter a consciência de que tinha tudo para ser feito, e lá, estava tudo pronto. Tive três meses para decidir, esse foi um tempo horrível”, confessa. Mas o desafio sempre o seduziu. Depois de três angustiantes meses, optou por Porto Alegre.

“Eu gosto de Porto Alegre. Sentia saudades de um sebo que tem na Marechal Floriano. Adorava entrar lá, tinha um cheiro de livro velho. Eu folheava e achava coisas superinteressantes. Isso tudo me dava uma saudade danada. Entrar no Estádio Olímpico em dia de jogo importante era incrível, tinha uma energia lá”, confessa.

O PRIMEIRO TRANSPLANTE
Quando regressou, J.J. Camargo iniciou o processo de preparação do hospital para transplantar. “Foi um susto para a direção do hospital, porque eles não sabiam que estávamos tão perto de fazer. Criamos uma infraestrutura, uma conjuntura em que, quando aparecesse um receptor, não poderíamos retroceder”, explica. O hospital contratou gente, treinou, investiu na unidade de tratamento intensivo, estabeleceu plantonistas em três turnos – estava tudo preparado. Em janeiro de 1989, admitiu o primeiro receptor. E aí era hora de começar.

“Foi uma experiência fantástica. Primeiro porque o cara era maravilhoso: tinha 27 anos, era dependente de oxigênio e tinha uma vontade de viver impressionante. Ele acompanhou todo o processo de estruturação do hospital, e, quando nos via desanimados, colocava uma foto dos dois filhos pequenos ao lado da cama, para sabermos por quem estávamos lutando”, relembra emocionado.

O transplante foi um sucesso. A partir daí, cresceram os desafios. Hoje, o Centro está perto dos 600 transplantes de pulmão. “Guardo na minha gaveta das coisas imperdíveis um bilhete que esse paciente escreveu. Ele não podia falar, porque estava entubado, então rabiscou: ‘Eu não disse que ia dar certo?’”.

A VALORIZAÇÃO DE CASA SER HUMANO
São muitas as histórias de pacientes que J.J. Camargo recorda com carinho. Além de ser um médico de reconhecida competência técnica, ele se distingue pela relação afetuosa que estabelece com os seus pacientes. Camargo não trata a doença, trata o paciente doente.

“As pessoas estão pecando por pressa, com absoluto desvínculo com o paciente. Um residente chegou e me disse: ‘Professor, amanhã vamos operar o 306?’ Eu, então, disse a ele: ‘Olha, chama o pessoal da manutenção. Paciente tem nome, identificação, história’”, pontua.

J.J. Camargo explica que os médicos precisam conviver com pessoas autenticadas pelo sofrimento. Por isso, não cabe outra atitude a não ser a da proximidade, respeito e parceria. O paciente, segundo ele, sente pavor de que a doença grave signifique solidão e abandono. Por isso a medicina requer generosidade e humildade. J.J. irrita-se com o profissional cheio de pose.

“Eu nunca vi um médico ‘posudo’ que valesse a pena. Ele gasta tanta energia na pose que poderia usar essa energia para se tornar uma pessoa interessante. O cara fez pose para mim, está ferrado”, sentencia.

O ESCRITOR
Muitos desses vínculos construídos com os pacientes são compartilhados por J.J. Camargo no caderno Vida, veiculado aos sábados no jornal Zero Hora. “Escrevo desde sempre. Mas com regularidade desde 2011, quando Moacyr Scliar faleceu e a ZH me convidou”, diz. O afeto é tema frequente de suas crônicas, assim como a felicidade, a tristeza, a parceria no enfrentamento do sofrimento. Em um dos títulos de seus livros, questiona: Do que é preciso para ser feliz? Fiz essa pergunta a Camargo.

“A coisa que mais me dá alegria é a sensação de que eu estou fazendo o máximo que posso. Eu fico mal quando tenho a sensação de que não fui bem ou não dei o meu melhor; ou me omiti de estar presente quando uma pessoa claramente queria que eu estivesse. Isso norteou a minha vida, a não ceder à tentação do cansaço. Se damos o melhor sempre, não há culpa”, respondeu.

JOVEM AOS 71
Aos 71 anos, J.J. Camargo é jovem, não apresenta sinais de cansaço. Sente-se pleno e realiza em média 20 cirurgias semanais, às vezes mais. Permanece em campo, diariamente, cerca de quatro horas. “Esses dias operei sete horas direto. Mas geralmente fico umas quatro horas operando, permaneço uma hora em cada, faço o mais importante. Entre uma e outra, tomo um suco, escrevo uma crônica, é uma questão de organização”, reflete. Com tanta energia, nem pensa em se aposentar:

“Tenho pavor da ideia da aposentadoria. Se as pessoas aprenderam o que podiam, não começaram a esquecer e têm boa cabeça, vão parar por quê?”

A única queixa que ele faz da vida é a rapidez do tempo. “A velocidade é muito grande, podia ser mais devagar, para a gente curtir mais. A vida boa voa, a vida ruim se arrasta”, sentencia.

O PROFESSOR
Movimento faz parte da vida de J.J. Camargo, ele é um realizador. Além da prática médica no consultório e em hospitais, compartilha seu conhecimento com os estudantes de medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre. Ao final de casa aula, apresenta “cases” em que os alunos aprendem sobre a relação médico-paciente.

Ele é também vice-presidente da Academia Nacional de Medicina. Lá, coordenou uma pesquisa para o Ministério da Saúde e Educação que investigou por que o profissional liberal brasileiro se aposenta mais cedo do que em outros países. Ficou encarregado de estudar modelos de escolha profissional. O modelo sueco lhe chamou especial atenção. “Lá, o aluno opta por ciências médicas ou não médicas. Se quiser seguir a área da saúde, conviverá seis meses com um profissional de caráter renomado para conhecer como a profissão é. Acho sensacional. Aqui, vejo alunos de 4º ano sem jeito com o paciente. A maioria das pessoas, mesmo tendo a certeza de que errou o caminho, não tem coragem de mudar. É tão difícil, o vestibular, e tem tanta coisa por trás, que é difícil chutar tudo e começar do zero”, avalia. Para Camargo, a escolha da profissão deve ser feita por paixão: “Se brilhar o olho, vai”.

AMOR: REMÉDIO CASEIRO
O olho de J.J. Camargo sempre brilhou pela medicina. E brilha também pelos netos João Pedro e José Eduardo. Eles são o maior vínculo do médico com Vacaria. “Minha mãe está lá, meus irmãos e meus netos estão lá, eu devia ir mais a Vacaria. Os netos são uma coisa maravilhosa, porque tem uma retomada de afeto incrível”, diz. “O Zé Eduardo não pode me ver sentado no sofá que põe uma almofada perto para receber massagem”, revela. O vovô coruja se derrete contando passagens com os netos.

“Dia desses, olhei para o Zé e disse: ‘Zé, você tem noção do quando o vô te ama?’ Ele respondeu: ‘Ah, vô, quando a gente ama junto, aumenta.’”

O carinho é, para Camargo, um remédio natural. O médico conta que, certa vez, em um programa de TV, lhe perguntaram o que era importante para a educação dos filhos. “Respondi que os filhos devem aprender a receber massagem desde pequenos”, sentenciou. O toque, o afeto, segundo ele, são fundamentais.

SAÚDE PÚBLICA
Vacaria quis demonstrar seu carinho a J.J. Camargo, e nomeou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de José de Jesus Peixoto Camargo. “Foi um gesto muito bonito”, agradece. E o que Camargo pensa da saúde pública no Brasil? “A saúde pública tem ilhas de excelência, mas no geral está muito ruim”, diz. Para o especialista, quando o Sistema Único de Saúde foi projetado não houve a preocupação em prover recursos. E também se ignorou o fato do crescimento vertiginoso da população, sem controle de natalidade, e a elevação gradual do custo da medicina, devido à tecnologia. “Também, não foi levado em conta o crescimento linear da expectativa de vida, o que significa mais doenças degenerativas e mais custo. Se tu somares isso à má gestão, que tem muito, concluímos que o sistema está falido”, alerta. Camargo critica a falta de critérios técnicos na escolha de profissionais em áreas-chave:

“Eu acho que selecionar com critério político pessoas para funções eminentemente técnicas, como do Ministro da Saúde, é um desastre”.

Esse tipo de escolha, segundo ele, compromete não só o atendimento na saúde, assistencial, como também os órgãos públicos que pesquisam. “A situação da Fiocruz, do Instituto Butantan, e laboratórios sérios, que fizeram coisas maravilhosas pela cultura médica brasileira, é inacreditável”, conta, entristecido.

Mesmo diante de um cenário pessimista na saúde pública, J.J. Camargo é provocador. Diz que a falta de estrutura não exime das pessoas a obrigação de fazer o seu melhor: “O comodismo é uma coisa tão relaxante. Uma coisa que me irrita muito são as pessoas que colocam a culpa do não fazer na falta de estrutura”.

 

 

CURIOSIDADES:

A família: Camargo é casado com Marília, também de Vacaria. Os dois têm dois filhos: Camilla, que também é médica, e Fábio, ruralista.

O jeito: é um homem sereno, de fala mansa, mas timbre forte. Gosta de conversar, sem pressa.

Cultura: É um homem muito cultural. Adora ler, ir ao teatro, cinema, passear, viajar.

Respira, não pira: Diz sentir a mesma emoção a cada vez que transplanta um pulmão. Assim que vê o sangue circular, a ventilação entrar, e o pulmão mudar de cor, sente-se grato.

Cuidado com a saúde: Gosta muito de carnes, mas as consome moderadamente, pois é diabético. Evita o álcool. “Quando está muito frio, bebo uma taça de vinho no almoço de sábado, mas fico com sono. Não me imagino ingerindo álcool novamente antes de uma semana. Mas fico mais de mês sem ingerir. Não metabolizo bem”, revela.

Velhice: é o período em que não há mais tempo para mudar as coisas importantes.

É autor de quatro livros médicos e cinco de crônicas:
*Não pensem por mim (AGE, 2009)
*A tristeza pode esperar (LPM, 2013)
*Do que você precisa para ser feliz? (LPM, 2015)
*O que cabe em um abraço (LPM, 2016)
*Felicidade é o que conta (LPM, 2017)

 

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