Eles são de Minas Gerais, uai

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Eles vieram da terra do pão de queijo, do feijão tropeiro, do leitão à pururuca. A culinária é certamente um dos fortes atrativos de Minas Gerais. O Estado é grande produtor de leite, queijo, feijão e café. Mas é também, como o seu próprio nome revela, terra do minério. Dos seus montes saem ouro, zinco, bauxita e ferro. As preciosidades estão nas montanhas e mais além. Estão nas cidades que marcaram a história política e econômica do Brasil colônia: Mariana, Diamantina, Tiradentes e Ouro Preto. “Não dá para falar de Minas sem lembrar as cidades históricas. Mas o imperdível de lá é a nossa gente. O mineiro é um povo amigo, muito receptivo. É feliz com pouco. Para o mineiro não importa o lugar, importa estar junto, com a casa cheia ou na mesa de um bar”, diz o dentista Clancy Ferreira, 40 anos, há 17 em Vacaria.

O mineiro diz que BH é a cidade brasileira mais bem planejada porque tem um boteco em cada esquina.
Crédito: Butecage

Eles têm sempre um sorriso no rosto, a fala cadenciada, não têm pressa para conversar. Logo que chegou a Vacaria, a vendedora Meire Lobo, 30 anos, estranhou a rapidez do gaúcho ao falar. “Tinha que concentrar nos lábios das pessoas para entender o que estavam pronunciando”, conta, achando graça.

Meire pegou até neve na cidade | Arquivo pessoal

O que mais estranhou, porém, foi o frio, assim como o veterinário Ângelo Serrano, 37 anos. “Faz mais de mês que o meu lençol térmico já está acionado. Moro aqui há oito anos e não posso dizer que me acostumei com o frio; sobrevivo a ele”, confessa. Clancy também sofreu com as baixas temperaturas.

“Em meu primeiro ano em Vacaria,
passei enrolado em um cobertor”,
revela Clancy.

Clancy, Meire e Ângelo descobriram Vacaria ao acaso. “Meu sogro constrói estradas, e migrou com a família para Vacaria, a trabalho. Botei a viola no saco e vim acompanhar minha namorada Luciana”, conta Clancy, de Veríssimo, cidadezinha próxima a Uberaba. Depois de anos na cidade, o dentista diz estar bem integrado, apesar da diferença cultural. “Lembro que, no primeiro churrasco que fomos convidados, chegamos atrasados. Aqui todo mundo senta, come e vai embora. Em Minas, a gente chega a um churrasco a qualquer momento, pois não tem hora para acabar. Vamos petiscando e bebericando todo o dia. É só uma desculpa para nos juntarmos”, revela. E é da junção com os amigos e parentes que Meire sente mais saudades. “Sinto falta da minha família, do povo. O mineiro diz bom-dia na rua até para um desconhecido”, salienta. Meire é de Cataguases, e mudou-se para Vacaria junto com o marido, que veio trabalhar em uma central hidrelétrica.

O que atraiu Ângelo para Vacaria foi a oportunidade de exercer sua profissão. Desde que ingressou na faculdade, almejava trabalhar com vacas, mas jamais imaginava que ia parar em uma cidade chamada Vacaria, tampouco a conhecia. “Eu nasci em Belo Horizonte, que é bastante urbana. Mas nas férias, costumava visitar minha avó na Zona da Mata. Lá, tinha muito contato com um tio, que tirava leite. Acho que essa experiência na infância determinou a escolha da minha profissão”, relata. Assim que se formou, Ângelo foi convidado a trabalhar na Rasip. Hoje, cuida da unidade láctea, responsável pela produção do gran formaggio.

“Saí de Minas, mas o queijo não sai da minha vida”,
brinca Ângelo.

 

 

 

 

 

 

 

 

A história de Ângelo não é uma exceção. O interior de Minas tem forte influência na vida da população: é valorizado, cultuado. Os mineiros costumam dizer que Belo Horizonte é uma roça grande: é uma cidade imensa com hábitos e costumes do interior. Seja do interior ou da capital, o mineiro tem um “jeitim” próprio de se relacionar. É amigo, uai, que conquista simpatia e aceitação por aonde vai.

*Crônica publicada originalmente no Correio Vacariense – coluna Vai e Vem – em abril de 2015. 

Clancy e Ângelo continuam morando em Vacaria. Meire migrou mais uma vez, está em São José do Ouro| RS.

 CURIOSIDADES

* Dizem que o povo gaúcho e mineiro se relacionam muito bem, um gosta do outro. Daí nasceu a expressão: mineirucho.

* Além da fala mansa, o mineiro faz uso de expressões muito particulares e gosta e economizar nas palavras:

  • Trem = é sinônimo de coisa
  • Uai = interjeição utilizada como o nosso Bah
  • Nó = abreviação de Nossa Senhora
  • Oncotô = Onde é que eu estou?
  • Lidileite = litro de leite

* Sertanejo:
Em MG se ouve muita música sertaneja. Paula Fernandes e Victor e Leo são de lá. Mas o rock também tem o seu lugar. Skank e Jota Quest são as bandas mais conhecidas.

 

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