Magali Sander Fett, uma vacariense que baila pelo mundo

Até onde você iria pelo seu sonho?

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Escreva no campo de pesquisa do Google: Magali Sander Fett. Logo vai encontrar imagens de uma moça franzina, de sardinhas no rosto e franja. A bela vacariense aparece, na maioria das fotos, em movimento. Afinal, é bailarina e coreógrafa, e os palcos são seus territórios preferidos.

“Não sei explicar o que a dança significa para mim, pois não digo que trabalho como bailarina, eu sou bailarina. Eu sou a dança, e a dança me proporciona uma incrível sensação de liberdade”, revela a artista, que era bastante tímida na infância. “Eu me escondia entre as pernas da minha mãe. Para eu brincar com outras crianças em uma festinha, tinham que me empurrar”, recorda. Curiosamente, bastava subir ao palco para a timidez se dissipar: “O palco, apesar da concentração que exige, é um lugar muito tranquilo pra mim”.

Crédito: http://tanzkollektivbremen.de/

Magali ingressou no universo da dança aos cinco anos, quando um professor de fora veio dar aulas de balé no Jockey Clube, em Vacaria. “Sempre gostei de dançar e adorei a aula. Só não gostei da apresentação de final de ano em que estávamos de palhacinhas em vez  de tutu (vestimenta da bailarina)”, conta, rebelando-se contra o professor. Magali aproveitou o embalo, também fez jazz e, aos 10 anos, entrou para o Centro de Tradições Gaúchas: “Sempre gostei do folclore, e o CTG permitia dançar em par, algo novo pra mim”.

Aos 15 anos, migrou para Porto Alegre, para cursar o terceiro ano e se preparar para o vestibular. “Estudei comunicação social, e me formei em publicidade e propaganda. Fiz estágios em algumas empresas. Até tentei não dançar, mas o ímpeto foi mais forte”, conta. Enquanto cursava a faculdade, Magali frequentou a escola de balé de Tony Petzhold, uma referência na época. “Acho que a minha mãe também queria ser bailarina. Ela morava em Porto Alegre, e na esquina de sua casa, tinha essa escola. Mas ela não tinha como pagar”, deduz. Além do balé, Magali vivenciou outras danças. Da metade das tardes até à noite, aperfeiçoou o bailar. Logo depois, entrou para o Ballet Fênix, e, assim, foi estabelecendo contatos e conexões. Mesmo aprimorando o balé clássico, Magali avançou na dança moderna e na dança-teatro.

OPORTUNIDADE APROVEITADA

A decisão por fazer da dança a sua profissão veio com um teste realizado na Escola Folkwang, que tinha como diretora ninguém mais, ninguém menos do que a consagrada bailarina Pina Bausch. “Eu tinha uma professora, a Eneida, que passou um ano na Alemanha e ela sempre me dizia que tinha uma escola que era a minha cara. Ela me incentivou, e me inscrevi para uma audição”, conta. Audições são testes pelos quais os aspirantes passam para entrar em uma companhía ou escola. Competem, frequentemente, com mais 200 pessoas.

Magali foi à Alemanha, enfrentando o medo e a estranha língua. “Quando eu pisei lá, logo me encantei, pois a escola era completamente diferente do que eu conhecia, nada convencional. A dança-teatro é superaberta”, explica. A filha de Pedro e Janice Fett decidiu, então, ficar em solo alemão. “Hoje meus pais entendem e apoiam a minha escolha, mas na época não gostaram muito, acho que por causa da distância”, salienta. Magali estudou e trabalhou em diferentes lugares desde então. Atualmente, vive com o namorido Till e o filho Mathis, de 9 anos, em Bremen, uma cidade-estado ao norte do país. Durante 12 anos, foi bailarina do teatro municipal da cidade.

 

ESFORÇO DE ATLETA

Quem está na plateia assistindo a um espetáculo de dança não imagina o trabalho que ele dá. “Quanto mais experiência e técnica um profissional tem, mais natural se parece no palco”, afirma. Até ficar “natural” são anos e anos de muita prática e superações. Um bailarino costuma treinar uma hora e meia, e ensaiar outras quatro ou cinco horas, todos os dias. Os veteranos dos palcos dizem que bailarinos são atletas, e alertam os aspirantes para que só ingressem na dança se não puderem viver sem ela. “O dia a dia é duro: dói aqui, dói ali; não se consegue fazer um movimento, no outro dia se  avança um pouco. São pequenos desafios diários”, conta Magali, que recentemente operou um joelho.

Magali diz que a dança é dolorosa, mas também terapêutica. “É muito gratificante quando consigo evoluir, fazer um movimento que antes era difícil, quando crio, consigo inovar”.

“Tinha um coreógrafo que sempre dizia: para ser um bom bailarino, primeiro, precisa querer, e, depois trabalhar duro para isso”, pontua. Magali trabalhou duro para chegar aonde chegou. “Viver em outro país, adaptar-se a outra cultura, só para dançar, tem que querer muito mesmo. Já vi muita gente se frustrar”, revela. Apesar das dificuldades, sente-se realizada.

Crédito: http://tanzkollektivbremen.de/

CONSCIÊNCIA CORPORAL

Quem dança costuma dizer que vê o mundo não só com os olhos, mas todo o corpo. “Quem nunca faz esporte, ou trabalha parado, sentado, esquece o corpo. Só se lembra dele quando começa a doer: ai, eu tenho uma perna; ai, tenho um pé. A gente vê o mundo por todos os poros. Não só a consciência corporal é grande, mas a sensibilidade também”, diz.

A DANÇA: LINGUAGEM UNIVERSAL

Magali conheceu muita gente através da dança, gente de todo lugar e diferentes culturas. Viajou e viaja muito para dançar, pois além de ter o seu próprio coletivo, é freelancer.

“Certa vez fui convidada para participar de um espetáculo de dança folclórica alemã em Berlim. Tinha bailarinos da Austrália, Cingapura e França. Jamais imaginei que pudesse dar tão certo. Tivemos uma sintonia incrível. Foi um processo mágico, muito bonito, em que em língua que nos comunicávamos era a dança”, recorda.

Sintonia fina, ela também tem com seus parceiros de trabalho: Tomas, um alemão e Miroslaw, um polonês. Juntos, formam o coletivo TanzKollektivBremen. Mas a sua atuação não para por aí. Magali ainda dá aula duas vezes na semana. “Ministro aulas de balé para uma turma de adultos, e de dança moderna avançada para adolescentes”, explica. Quando estiver recuperada do joelho, vai começar a dar aulas em uma universidade. “Fui convidada para fazer parte de um projeto social, de dança, junto aos refugiados. Na Alemanha, tem muitos deles”, reforça.

Falando em refugiados, é de Mustafá que Magali lembra quando questionada sobre alunos marcantes. “Mustafá é da Gâmbia, é lindo como pessoa e como bailarino. Foi meu aluno, e depois dividimos o palco. É dessas bonitas experiências que a dança nos dá”, destaca.

A RECOMPENSA

Nem só de aplausos vivem os bailarinos – de medo de vaias também. Quando questionada sobre um espetáculo que lhe marcou durante sua trajetória, Magali comentou de uma viagem ao Uzbequistão. “Certa vez, a Companhia de Bremen foi convidada pelo Instituto Goethe para fazer uma apresentação no Uzbequistão. Chegamos ao país devastado por uma ditadura e um terremoto recente. Ficamos com receio de não sermos compreendidos, pois era uma dança complexa. Lá, todos vão ao teatro, comem, bebem e falam durante a peça. E nos surpreendemos com tamanho silêncio e respeito. Ao final, recebemos uma enxurrada de aplausos”, recorda aliviada.

Para Magali, a satisfação do público é um lindo reconhecimento. Mas o maior deles é pessoal. “O aplauso do público é sem dúvida importante. Mas a maior recompensa é a autorrealização, de fazer o que se gosta e viver do que se ama”, conclui.

Por Giana Pontalti | 03.08.2018

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