Uma feminista: Márcia Tiburi

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É com entusiamo que lançamos neste mês de março o espaço ENTREVISTAS no MadeInVacaria.

Aproveitamos o mês que destaca a luta das mulheres por seus direitos e repeito para entrevistar a vacariense Márcia Tiburi, uma das principais vozes do feminismo no Brasil. Márcia é filósofa, professora e escritora. Assina, nada mais, nada menos do que 34 obras, entre dissertações, ensaios, antologias, romances e livro infantil. O seu mais recente livro, Feminismo em comum, para todas, todes e todos é um convite para o entendimento sobre o conceito que envolve não só as mulheres, mas todas as minorias. Boa leitura!

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A vacariense que dá voz ao feminismo no Brasil | Crédito: Simone Marinho

Giana: A primeira vez que ouvi falar de você, alguém que trabalhava em um meio de comunicação local a taxava de “louca”, pelas opiniões que você conferia à Vacaria. A primeira vez que li você foi com o Feminismo  em comum, em que você mesma alerta para quem busca deslegitimar as mulheres que têm voz, as estereotipando de loucas. Certamente você é uma das brasileiras que mais têm voz na contemporaneidade e não tem medo de ser quem se é. Como essa Márcia forte se construiu?

Márcia: Obrigada por sua pergunta direta. Provavelmente o cidadão que se pronunciava dessa maneira a meu respeito nunca leu um livro meu, sequer um artigo e provavelmente não entendeu o que eu queria dizer. O cidadão grosseiro que me chamava de louca, devia estar ocupado com seu trabalho estúpido de tornar as pessoas ainda mais estúpidas.

O autor sobre o qual fiz tese de doutorado (em 2019 faz 20 anos que defendi minha tese!) que diz que prefere os loucos aos burros. Lembremos disso a cada vez que alguém quiser nos desqualificar porque somos mulheres, ousadas e diferentes. Uma pessoa como eu que escrevo livros, devo despertar o ódio e inveja de analfabetos políticos de todo tipo. Aliás, “louca” é um xingamento misógino muito comum como você mesma menciona. Me parece que não é menos importante o problema cultural que está em sua base. As pessoas comuns não têm acesso à produção intelectual de quem elas simplesmente veem por aí. Infelizmente, eu me tornei conhecida pela televisão por ter feito parte de um programa chamado Saia Justa por mais de cinco anos. Muita gente que me assistia jamais leu um livro meu. A maior parte da população brasileira vê muita televisão e não lê livros. Isso é um problema imenso. Porque os livros formam um tipo de pessoa diferente. Eu sou uma pessoa formada pelos livros. Aliás, costumo contar que meu contato mais impressionante com os livros se deu na pequena biblioteca da Catedral de Vacaria. Isso o jornalista mal intencionado não fala, não é? E essa é uma história bonita. Mas essa versão do que eu conto, quem se preocupa em conhecer em nossa cidade? A meu ver, é possível mesmo que haja muita má fé para com uma mulher como eu que vim de onde vim e não esqueço, nem escondo a realidade das minhas origens. Mas quem ainda lê nesse país de culto à ignorância?

Certamente, aquele jornalista caricato, que nem sei quem é, não leu o meu livro chamado “Era meu Esse Rosto”, um romance que cria uma cidade chamada “V” que em tudo é Vacaria, além de ser Verona, Veneza, Vicenza, o Vêneto de onde vem a minha família paterna que é retratada nesse romance. Falo, nesse livro, do cemitério da nossa cidade que é bem importante para mim que venho de uma formação católica altamente ligada aos mortos da família. Falo de como meu avô italiano veio parar aí. É um romance contemporâneo, não histórico, mas reflete muito da minha relação com o que é Vacaria no meu imaginário. Sobre questões mais gauchescas, há outro romance de 2006 chamado A Mulher de Costas, em que recrio em um tom feminista a lenda da Salamanca do Jarau que eu ouvia quando era menina.

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A jovem vacariense que se encantou pelos livros | Crédito: Simone Marinho

Giana: O que a menina Márcia sonhava em ser quando crescesse?

Márcia: Sonhar é uma palavra complexa para mim. Eu queria ser professora. Me tornei professora, pois nunca gostei da ignorância. Mas queria mesmo era passar a vida estudando, como faço. Não imaginava me tornar escritora. Essa foi a novidade.

Giana: Em um TED, você comentou que quando jovem pensava sobre Vacaria “Ou me mato, ou fujo ou espero passar”. Até que idade você morou aqui? O que a incomodava tanto na cidade ou na cultura da cidade?

Márcia: Quando eu falei isso, estava consolando as pessoas que vivem em cidades do interior e se sentem infelizes pela falta de oportunidades para jovens que é uma característica de todas as cidades do interior do Brasil, com exceções que confirmam a regra. Estava usando um certo humor, a ironia, que é própria de um discurso filosófico. Pensava em Lou Reed do Velvet Underground. Era uma fala pop e alegre. Só isso. Eu não tenho nenhum problema com minha cidade natal, ao contrário. Assim como Drummond não existiria sem Itabira, eu não existiria sem Vacaria. No entanto, tive uma infância muito difícil, uma adolescência igualmente dura. Era natural que eu quisesse ir embora e fazer coisas boas na vida. Eu queria ver o mundo. Atualmente estou no Estado Unidos escrevendo um livro. Daqui vou para a França para continuar escrevendo. Aliás, meus romances estão sempre marcados por uma característica da serra gaúcha, em especial de Vacaria, o frio. Pois nosso frio é mais denso. É um modo de ser.

Giana: Você foi morar em Porto Alegre para estudar, certo? O que a fez escolher filosofia e artes?

Márcia: Eu tinha 17 anos. Eu gostava demais de estudar. Adorava mesmo. Gostava muito de matemática. Mas quando descobri filosofia achei mais difícil. Na verdade, eu descobri os livros de filosofia na biblioteca da Catedral. Me lembro disso, eu tinha cerca de 14 anos. Fiquei completamente extasiada com os livros dos filósofos. Minha vida mudou ao descobrir aqueles livros de Schopenhauer e Nietsche, Kierkeggard e Marx. Isso mudou tudo. Eu adorava desenhar e pintar e estudar artes sempre me pareceu um caminho bem comum para mim. Era o que esperavam de mim. Mas quando descobri a filosofia nunca mais fui a mesma pessoa. Depois eu tive filosofia no colégio com a Cláudia Zamboni que era uma pessoa adorável. Isso também me fez pensar que era um caminho possível, mas naquela época eu não tinha essa consciência toda.

Giana: O debate sobre o feminismo é bastante atual e ganha adeptas que ingressam na luta mesmo que por modismo (me too), outras por consciência (estudo, vivência), outras ainda criticam o excesso de lutas femininas, como as mulheres mais velhas (falam que as mulheres estão exagerando, que buscaram a independência e agora estão sobrecarregadas). Muita gente ainda não sabe o que é, de fato, o feminismo, explica pra gente?

 

Márcia: A meu ver, mais do que uma definição, precisamos entender que relação temos com a opressão em um mundo como o nosso. O feminismo é a luta contra a opressão e a violência contra as mulheres, mas hoje em dia percebeu-se que as opressões funcionam juntas. Nesse sentido, o feminismo é uma luta antirracista e uma luta de classes também. Quero dizer, uma luta de classes no sentido de que não pode tolerar a desigualdade e a injustiça de classe que é a maior em nosso país.

Giana: Há quem pense que o feminismo é uma espécie de “machismo das mulheres”. Adorei uma confissão sua em que afirmou que o feminismo não é o extermínio dos homens. Inclusive, em seu livro, você deixa claro que os homens também são vítimas do machismo, pois reproduzem comportamentos aprendidos da sociedade patriarcal. Como mudar esse sistema?

Márcia: Vai ser muito difícil mudar, porque o patriarcado é um sistema de privilégios. Quem quer acabar com privilégios? Só pessoas com uma profunda mentalidade democrática. Por que você acha que o Brasil está retrocedendo e voltando a ser um país atrasado e autoritário? Por que as elites não querem perder privilégios e porque não tem limites nos seus jogos de poder que envolvem opressão, violência e todo o tipo de maldade que vimos no Brasil desde o Golpe de 2016.

Giana: Vacaria ocupava, em 2015, o 8º lugar no índice de cidades gaúchas que mais cometem violência contra as mulheres (Fonte: Ministério Público). Em 2018, ocupamos o 21º. Este índice revela a violência física, mas não considera as violências emocional e simbólica. Que tipos de violência sofremos sem nem perceber que são violências contra nós?

Márcia: No 8 de março do ano passado escrevi sobre a Djanira que era a moça que vendia produtos da Avon para a minha mãe quando éramos crianças. Ela foi morta no começo de 2018 perto dos 70 anos de idade, pelo marido com quem viveu por mais de 40 anos. Não sei se os vacarienses leram, mas seria bom, porque menciono a nossa cidade. Aliás, no meu livro de 2018, esse pequeno ensaio chamado Feminismo em Comum, eu escrevo sobre a minha avó e a minha mãe, minha avó espancada por meu avô, um gaúcho típico de bombacha e botas, de quem ela se desquitou para não ser morta nos anos 50. Esse tipo de coisa deixa as famílias com muita vergonha. Minha mãe mesmo sempre foi muito marcada por isso. Meu avô materno, bem gaúcho, era um infeliz criado pelo machismo. Nesse livro eu falo dessa vergonha que as mulheres tem de serem violentadas e espancadas. O artigo saiu no blog da Cult, revista de Cultura na qual eu tenho coluna há mais de 10 anos.

Márcia Tiburi falando, opinando, opiniões de Márcia Tiburi

Giana: Estamos no mês do dia internacional da mulher. Que lutas as mulheres precisam enfrentar em 2019?

Márcia: As mesmas de sempre, mas agora com a intensidade do fascismo que atinge o Brasil.

Giana: Muita gente não sabe, mas você já publicou muitos livros, entre eles Magnólia, indicado a um dos prêmios mais reconhecidos de jornalismo, o Jabuti, em 2006. Escrever é uma necessidade ou é trabalho?

Márcia: Eu tive alguns dos meus livros indicados a prêmios. Ganhei também um Açorianos pela minha tese de doutorado que foi publicada como livro em 2005. Magnólia e Era meu esse Rosto foram indicados ao Jabuti de literatura. Outros ensaios, como Olho de Vidro, por exemplo, foram indicados em outras categorias. E houve indicação ainda de outros prêmios. Escrever para mim é um modo de existir. Acabou se tornando o meu trabalho também. Mas para mim é sobretudo uma forma de vida. E um desafio diário.

Giana: Percebo que você busca preservar a sua vida pessoal. Onde você vive? Com quem mora? É casada, solteira? Tem filhos? Conta pra gente um pouco da vida pessoal, de quem faz parte do seu dia a dia.

Márcia: Eu sou casada com um juiz carioca, doutor em direito e autor de livros no seu campo de estudos que é direito penal e sociedade. Tenho uma filha de 21 anos. Morei muito tempo em São Paulo e no Rio, mas agora estou vivendo uns tempos fora do Brasil.

Giana: O que lhe faz sorrir? E chorar?

Márcia: O Brasil.

Giana: Você nasceu no Rio Grande do Sul e morou no Rio de Janeiro. A sua ida ao Rio foi opcional? É o onde se sente em casa?

Márcia: Foi por meu casamento com um carioca e eu desejava ficar na cidade, mas infelizmente não foi possível no momento. Antes eu morava em São Paulo e adorava morar em Porto Alegre. Mas o que eu realmente penso é que para quem escreve a literatura é a sua morada e para mim tanto faz onde eu esteja, desde que possa escrever meus livros.

Giana: Você foi candidata a Governadora do Rio Janeiro nas últimas eleições pelo PT, em um momento de fragilidade do partido no Brasil. O que a fez migrar do PSOL para o PT? O que é ser de esquerda hoje em dia?

Márcia: Eu sempre fui muito anarquista, nunca gostei de política partidária. Mas o Brasil mudou e esses nossos gostos não podem mais falar tão alto porque se trata de uma questão de responsabilidade com a cidadania. Eu me filiei no PSOL em 2013 porque achava que era importante estar acompanhando o tempo político do nosso país. Mas houve o Golpe em 2016 e muitas pessoas do partido começaram a defender o esquema de operações políticas tais como a Lava-jato que, a meu ver, a maior manipulação orquestrada contra o Brasil desde a ditadura militar. Eu saí do partido por perceber que havia aí um perigoso resvalo. A extrema-direita que, no limite, se torna fascismo em potencial (o cidadão comum inoculado pelo ódio plantado pela mídia) e fascismo de Estado, como vemos hoje. Só me filiei ao PT em 2018 com o presidente Lula para demonstrar minha solidariedade e gratidão ao partido. Descobri um partido muito interessante e gigantesco, é uma força que realmente apavora as elites dominantes.

Giana: Você comenta em muitas entrevistas que a filosofia possibilita o diálogo e, que este, é o convite à reflexão e a compreensão do pensamento diverso. “No verdadeiro diálogo eu troco o desprezo pelo reconhecimento do outro”. Parece que nas últimas eleições não dialogamos, apenas trocamos farpas e acusações. Desaprendemos a dialogar?

Márcia: Na verdade, qualquer campanha eleitoral, qualquer disputa pelo poder tende a perder a elegância. Até aí tudo bem. O que aconteceu em 2018 é que o jogo ficou infinitamente mais podre. O que a máquina bolsonarista alimentada pelas ideias de Stevie Bannon, uma espécie de Goebbels americano, jogou sujo demais. Imagine as invenções do “kit gay” e da “mamadeira de piroca”. Imagine inventarem que Haddad tinha estuprado uma menina. É muito triste o que aconteceu e para sustentar isso, só táticas de terror.

Giana: Por fim, o que esta mulher empoderada tem para dizer as mulheres de Vacaria?

Márcia: Eu não sou uma mulher empoderada. Você leu meu livro e sabe que eu sempre questiono essas terminologias. Como todo mundo eu sou uma pessoa em potência, uma pessoa tentando entender que mundo é esse em que vivo. O que eu sei de Vacaria hoje? O que me vem de minha mãe, irmãs e sobrinha que vivem aí. Continua sendo a mesma Vacaria para mim. Um lugar que precisa se desenvolver, crescer e trazer mais felicidade às pessoas. Desejo que as mulheres saibam se tornar donas de si mesmas e não permitam que machistas, que homens violentos, que homens maus se aproximem delas. E que saibam ser verdadeiras amigas umas das outras.

por Giana Pontalti | 16.03.2019

 

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