Anderson Pontalti, um executivo cidadão do mundo

A trajetória do engenheiro mecânico que chegou à gestão por sua capacidade de dialogar.

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Frear caminhões, ônibus, automóveis, aviões, metrôs, pás eólicas, elevadores e equipamentos industriais com total segurança é o core business da Fras-le: indústria caxiense, integrante do grupo Randon, que é líder na América na produção de lonas de freio.

À frente dessa gigante gaúcha, presente no mundo todo, está o vacariense Anderson Pontalti, diretor-geral da S.A. Pontalti é responsável por todas as operações da companhia fora do Brasil.

Esta é a primeira vez que o Made in Vacaria entrevista um executivo. Anderson divide conosco os constantes desafios de manter e fazer crescer a empresa que é referência em segurança no movimento, mas que foi freada recentemente pela pandemia do coronavírus.

Em Harvard, EUA, onde cursou Gestão de negócios globais | 2018, arquivo pessoal

ENGENHEIRO EMPREENDEDOR

Quando se é jovem, não é fácil escolher uma profissão. Anderson decidiu cursar engenharia e foi assertivo na sua escolha. Na lista de possíveis profissões, estava a agronomia, a engenharia mecânica e a civil.

“Quando pequeno, eu pensava em ser agrônomo, por causa da região. Eu gostava do campo, da lavoura, era o que estava ao meu redor, era mais concreto, menos distante. Mas eu também ouvia dizer que era difícil viver de agricultura e pecuária. Na minha adolescência, percebi a migração dos pecuaristas para o oeste catarinense e oeste do Brasil. Eu tinha essa leitura e optei, então, por cursar engenharia, por afinidade com a física, a matemática e a química”, conta.

Com 15 anos, Anderson migrou para Caxias do Sul, terra dos avós maternos, e aos 16, entrou na faculdade. O começo do curso é um divisor de águas porque, se você não gostar e não tiver aptidão, não avança, pois vai sentir muita dificuldade. Se você não tiver um segundo grau bom, vai se frustrar, porque as exigências são grandes. Lembro que começamos o curso em 120 alunos e nos formamos em 11. Já no mestrado, ingressamos em 12 e apenas três o finalizaram como mestre, comenta.

Ainda no início da faculdade, Anderson começou a trabalhar. A Procad, desenvolvedora de softwares, abriu as portas para o seu primeiro emprego. Aos 20 anos, o estudante ingressava na Jost, do grupo Randon, como estagiário de engenharia. “Aprendi muito na Procad, pois lá eu trabalhava com lógica e matemática. Mas eu queria atuar em uma empresa em que pudesse aplicar o que estava estudando na universidade”, relata. Na Jost, o jovem estudante pode desempenhar uma função que até hoje o apaixona: projetar. “Meus primeiros sete e oito anos de carreira, criava produtos para veículos pesados. O fato de você ver o produto se concretizar, rodando nas carretas Brasil a fora, é prazeroso. Acho que este é o lado pragmático do engenheiro: querer ver algo consolidado”, explica.

Antes, porém, de um produto se concretizar, é preciso muito estudo e dedicação. Desde o início de sua vida profissional, Anderson buscou se aproximar das lideranças agregadoras, dispostas a ensinar. Quando teve oportunidade de conquistar mais responsabilidade, se posicionou:

“A primeira vez que eu tive contato com um cliente foi na montadora Ford, em São Paulo. Foi também a minha primeira viagem de avião. Fui acompanhar um engenheiro mais experiente em uma reunião. Na época, eu tinha uns cinco ou seis meses de empresa. Naquele momento, eu percebi que podia contribuir muito. Tive a felicidade de ouvir e participar da conversa. Entendi a demanda do cliente e pedi para fazer a peça, disse que sabia como melhorar o produto e agregar valor. Lancei para mim o desafio, e a empresa topou.”

Com tal ousadia e vontade, Anderson via despertar em si o espírito empreendedor: “Eu olhava uma peça e já a imaginava um produto melhor”, comenta.

CAPACIDADE DE DIALOGAR

Engenheiros são pragmáticos. Até os próprios engenheiros concordam com essa máxima propagada nos ambientes corporativos. Mas tal afirmação não significa inaptidão para o diálogo.

A diferença entre os engenheiros, além das questões técnicas, para os que dão certo e os que não dão, é a capacidade de dialogar, de buscar informação, porque ninguém tem todo o conhecimento. A habilidade de ir ao cliente e entender a aplicação do produto, de ir ao fornecedor e ver o que é possível fazer para agregar valor, conversar com o pessoal da fábrica que vai produzir a peça, conversar com os colegas engenheiros: isso, para mim, é diferencial profissional, em qualquer carreira. Na engenharia não é diferente. É preciso dialogar. Engenheiro que é fechado, introspectivo, certamente vai encontrar limitações.”

E foi por sua capacidade de dialogar e propor, que o vacariense assumiria, anos depois, o cargo de líder técnico da empresa, responsável pela engenharia como um todo: de processo, qualidade, desenvolvimento de fornecedores. Mal sabia o jovem que gostava de projetar que arquitetaria, nos anos seguintes, grandes mudanças na corporação.

Em Pinghu, durante o processo de ampliação da planta da Fras-le na China | 2017, arquivo pessoal

Da engenharia à gestão, Anderson levou consigo um aprendizado: “É preciso que a empresa dê espaço para o crescimento das pessoas. É preciso que os líderes confiem nos colaboradores, para que esses possam mostrar o seu melhor. Eu tive espaço e isso foi muito gratificante. Tem muitos talentos ocultos, escondidos atrás das estruturas hierárquicas mais rígidas”, alerta.

CARREIRA ASCENDENTE, RESPONSABILIDADE CRESCENTE

Depois de desenvolver produtos e coordenar a equipe de engenharia, Anderson foi convidado, em 2010, a juntar-se à equipe da Fras-le como gerente de operações e logísticas.

“Costumo brincar que, até então, eu projetava peças de aço e fui comprar barranco moído. É a terminologia que usávamos para o sulfato de bário, uma das matérias-primas mais utilizadas na empresa. A Fras-le é uma indústria química, que transforma matérias-primas em produtos. Recebe matérias-primas da Índia, Egito, Estados Unidos, Europa, China, de todo lugar. Mudei completamente de função e tive a felicidade de contar com uma receptividade maravilhosa. A cultura organizacional da Fras-le é fantástica, acolhedora e muito empreendedora. Cheguei à Fras-le do meu jeito, com os meus valores e fui respeitado assim”, conta.

Pela mesma companhia, Anderson morou dois anos na Alemanha, onde respondeu por novos negócios e pelo escoamento da produção em toda a Europa. “Aprendi muito na Alemanha. Uma coisa é produzir e comprar, outra é vender. Vender é mais difícil do que comprar, especialmente quando se vende para 30 países, 30 culturas diferentes. Uma hora você está negociando na Turquia, outra na Dinamarca. Uma hora estamos conversando com executivos da Rússia, em outra com os de Portugal. É muito instigante. Se você for para a mesa de negociação sempre do mesmo estilo, vai ‘levar porrada’. É preciso ter flexibilidade, entender o outro, desenvolver a empatia”, relata.

Empatia essa que o engenheiro foi aprimorando, seja com clientes, colaboradores ou colegas:

“Penso que se aperfeiçoar nas relações interpessoais é fundamental para qualquer profissional, ser resiliente e saber se ajustar, também. Não podemos esperar dos outros a perfeição, exigir que entreguem o trabalho exatamente como imaginamos. É preciso entender que cada um tem um pensamento, uma ideia diferente da tua, e é preciso ver valor no que cada colaborador, cada liderança entrega”.

No Vale do Silício, EUA, durante missão empresarial para conhecer iniciativas de inovação. | 2019, arquivo pessoal

Anderson destaca sempre a importância dos ajustes para o trabalho fluir em uma empresa internacionalizada, com 4.500 funcionários em ação. Mas da ética, não abre mão. Valor esse reforçado quando trabalhou junto aos europeus:

“Na cultura europeia, não existe malícia, eles não entendem malícia. Se você tiver má índole, você enrola. Que prazer tem isso? Nenhum. O brasileiro tem muito o jeito da malandragem, que é abominável nas relações”.

 Ao regressar da Alemanha, Anderson foi promovido a diretor de operações. Aos 36 anos, conquistava o título do mais novo diretor do Grupo Randon. “Nas operações, a gente alavanca as plantas industriais, responde por investimentos pesados, inovação tecnológica, automação 4.0. Aprende-se muito, dedica-se outro tanto”, reforça.

Na direção, não tardou para chegar ao topo e ser convidado a ser diretor-geral do negócio de fricção da Fras-le. “Um gestor precisa ter muita vontade de aprender e precisa trabalhar bastante. Ilude-se quem pensa que é diferente. É um ramo estressante, competitivo. Se você gosta, o esforço é natural. Penso que os meus valores estão muito alinhados com os do Grupo Randon. E o principal deles é o respeito às pessoas, também, a ética. É claro que a empresa visa lucro, os executivos visam lucro, mas a empresa tem um senso de respeito às pessoas que é real, que vem da família Randon, sobretudo do seu Raul, o fundador. Embora ele não esteja mais conosco, a família está muito presente com esses valores, e essa cultura está enraizada nos 12 mil funcionários”, declara.

E foi por respeito às pessoas, que o Grupo decidiu parar as operações no dia 20 de março devido à pandemia do coronavírus. Muitas das operações nas 16 unidades – entre escritórios, plantas industriais e centros de distribuição – foram reduzidas.

PRODUTIVIDADE BRASILEIRA / VALE DO SILÍCIO DO AGROBUSINESS

Pouco se fala no Brasil sobre produtividade. Para o executivo, o Brasil está décadas atrás, em relação a outros países, em eficiência produtiva e precisa intensificar a sua vocação como celeiro do mundo.

Em Xangai, China, em reuniões de trabalho. Aquivo pessoal.

“Estamos há décadas atrasados em produtividade em relação aos países de ponta. Aos Estados Unidos nem tanto, falo em relação à Ásia e Europa. A Ásia é hoje o grande parque fabril do mundo, e não é de mão-de-obra, é de tecnologia. Lá estão as maiores montadoras, os maiores volumes de produção, tem escala, consumo doméstico. Geopoliticamente, eles se protegem melhor, também”, resume.

Apesar da baixa produtividade, Anderson acredita no Brasil, tanto que não pensa em migrar, mesmo com propostas frequentes de headhunters internacionais.

“Eu gosto daqui e ainda sou um otimista em relação ao Brasil. A indústria automotiva ainda é extremamente forte no país, mas precisa e requer maior atenção de todos os setores. Mas o DNA brasileiro é a agricultura. O Brasil teria de ser o maior líder em todas as frentes do agro: no desenvolvimento, produção, geração de tecnologia, de know-how nessa área. O agro andou bem, mas tem que dar mais foco ainda. A gente tem que ter o Vale do Silício do agrobusiness aqui”, sugere.  

TEMPO PARA A VIDA PESSOAL

A rotina do diretor geral inicia às 7h30 e termina às 18h. Anderson começa o dia conversando com os country managers da China e Europa. À tarde, é a vez de contatar os territory managers da América Latina e Estados Unidos. “Claro que, como eu tenho operações que estão horas atrás e à frente, tenho demanda fora desse horário. Mas meus horários são respeitados”, comenta.

Até ele, chegam as questões que demandam decisões mais complexas. “Os líderes das unidades são pessoas maduras, que sabem tomar decisões. Eles trazem para mim os problemas mais sérios, que impactam o negócio como um todo”, explica.

E como fica a cabeça com tamanha responsabilidade? “Todo o meu tempo, depois do trabalho, dedico à Patrícia, meu amor, e Joaquim, meu sol. O que eles mais me demandam é presença, de fato. No ano passado, por causa de aquisições, viajei muito, dormi 120 dias fora de casa. Mas quando estou em casa, gosto de cozinhar, ouvir música, tocar violão, ficar com a família, estar com os amigos. Sou simples, gosto de coisas simples”, revela.

Na Arena do Grêmio com o filho, Joaquim, e a esposa Patrícia.

Depois de anos na gestão, conciliar vida profissional e pessoal é mais fácil, mas nem sempre possível. “Quando você assume uma nova função, existem momentos de pico, de estresse. Aí, você tem que se dedicar até conhecer e dominar aquilo. Depois que tem conhecimento da área e experiência, consegue equilibrar, sim. Não posso dizer que todos os anos foram equilibrados”, revela.

 

RITMO FRENÉTICO / PARADA COMPULSÓRIA

“Nesses 41 anos, vi o mundo melhorar muito, em qualidade de vida e conforto. O Brasil incluiu muita gente nas últimas duas décadas. Por outro lado, ainda temos 1 bilhão de miseráveis no mundo e vejo muita gente adoecendo mentalmente, com burnout. Precisamos repensar esse ritmo”, afirmou o executivo.

Quando o entrevistamos, no começo de março, Anderson nem imaginava que, alguns dias depois, pararíamos todos com a chegada do coronavírus ao Brasil, e que seríamos obrigados a repensar justamente esse ritmo.

Ontem, 05 de abril, Anderson completou 42 anos. Atualmente, está em home office, e em ritmo intenso. “Estamos planejando o terceiro trimestre do ano, e a volta ao trabalho, aos poucos. São as variáveis externas com que sempre precisamos lidar. Tudo indica que 2020 demandará tanto trabalho como 2019”, finaliza.

CURIOSIDADES

FAMÍLIA VACARIENSE

Anderson acredita que é possível aprender a diplomacia e a capacidade de dialogar, mas que muito delas vem de casa. “Acredito que muito é nato, é da nossa criação, de um ambiente de uma família segura, com amor. Eu me sentia uma criança e um adolescente amado e amparado pela família, isso traz uma segurança grande nas relações”, reforça. Anderson é filho de Wagner e Jurema Pontalti. “Com meu pai, aprendi o lado cuidador, e com minha mãe, a dinamicidade, ela faz tudo e cuida de todos ao mesmo tempo”, destaca.

Para quem está questionando se Anderson é meu parente: sim, é meu irmão, e tenho muito orgulho desse cara.

Família, arquivo pessoal.

RESPONSABILIDADE

O executivo explica a importância da Fras-le com o exemplo de uma carreta que trafega na estrada. “Imagina uma carreta transportando 76 toneladas, e você no seu carro à frente dela. Se ela precisar frear, é bom que seja com eficiência”, destaca.

RESILIÊNCIA PARA ENFRENTAR CONFLITOS

A resiliência é, para Anderson, uma das características mais importantes dos profissionais. O executivo já enfrentou grandes conflitos com uma liderança sua. “Houve uma total falta de alinhamento de valores. A falta de ética, fofocas, mentiras, posturas maquiavélicas não combinam com bons profissionais, e esses não perduram. Tive de ser resiliente e abri minha situação para a companhia. Não ia jogar fora uma carreira por um período difícil”, coloca.

RESPEITO ÀS CULTURAS

Para atuar no mercado internacional é mais importante o respeito às culturas do que dominar várias línguas, é o que acredita Anderson. “Você nunca vai levar a tua cultura, o teu jeito, o teu estilo de vida para um país estrangeiro. Você é que tem de se adaptar a ele. Se na Alemanha, come-se linguiça, se na China, cobra, vamos comer o mesmo.”, explica.

ESPIRITUALIDADE

Anderson considera-se um homem espiritualizado. E a espiritualidade, para ele, tem um cunho social muito grande. “Hoje, para mim, a espiritualidade se revela nas relações. Cuido para não ser tóxico com ninguém. Na minha posição, se eu não estiver bem, afeto muita gente. A responsabilidade é muito grande”, diz.

Informações complementares:

Anderson Pontalti é graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade de Caxias do Sul e é mestre em engenharia automotiva pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. | O fundador do Grupo Randon é Raul Anselmo Randon. A Fras-le conta com dois diretores-gerais, um do negócio de fricção e outro de não-fricção.

por Giana Pontalti | abril de 2020

8 COMENTÁRIOS

  1. Menino de ouro. Que Deus te abençõe e te acompanhe por estes tantos caminhos que por onde deves seguir.
    Entrevista espetacular, Giana.
    Parabéns aos dois, me senti sentada, junto com vcs, escutando este bom-papo que fala leve de coisas tão importantes.

  2. Giana, Excelente matéria com Anderson, além de ótimo conteúdo, a estruturação do texto deixa uma leitura agradável.
    Fantástico conhecera trajetória dele e a forma de pensar e atuar nas questões profissionais e se cidadão.
    Abraços
    Alexandre Langone Noya

  3. Muito bom, se percebe muitas coisas na fala de um grande homem, sempre vem responsabilidade social, entendimento de equipe e respeito à cultura.

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