Delmo Longui: cuidando do quintal e do planeta

Resíduo não é lixo. Tá mais que na hora de você saber.

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O exemplo é sempre a melhor forma de educar. Neste mês de dezembro, entrevistamos o cabelereiro Delmo Longui, que é um cidadão exemplar no cuidado ambiental. E ele é enfático ao dizer que a questão do lixo (sua produção, sua separação e sua destinação) é um indicador de sociedades maduras. A entrevista com Delmo é um convite ao amadurecimento, para que cada vacariense cuide melhor do lixo que produz, afinal não existe jogar fora neste planeta.

Delmo Longui, Delmo´s, cabelereiro Vacaria
O cuidado ao meio ambiente não é discurso na vida de Delmo: é prática.

Giana: Delmo, nesse segundo semestre de 2019, as queimadas na Amazônia e o vazamento de óleo nas praias do Nordeste foram notícia na grande imprensa. Você acha que os assuntos ambientais estão mais em pauta nesse momento, ou sempre estiveram?

Delmo: Estão mais na mídia, sem dúvida. Estão em pauta porque o momento que estamos vivendo é um momento de pensar o que queremos para o futuro.

Giana: De pensar ou de agir?

Delmo: De pensar e de agir. O principal é o agir, pois conhecimento sem ação é nada.

Giana: Tenho a sensação de que as notícias sobre a degradação ambiental sempre foram destacadas nos últimos anos. Apesar da grande exposição, não mudamos o nosso comportamento enquanto habitantes deste planeta.

Delmo: A Amazônia é muito grande e distante. Penso que o que é grande e está longe não influencia diretamente em nossa ação. Temos que focar no que está próximo, na realidade local. Sou da ideia de mudar o local onde vivemos. Devemos começar em casa, em nossa rua, no bairro, a partir daí podemos mudar o mundo.

“Agora, se preocupar com a Amazônia sem se preocupar com o lixo da tua casa, com o plástico da tua casa, não faz sentido. Eu penso no todo: na energia, na água, no lixo. Sou bem empolgado no cuidado ambiental. Quando tu começas a pensar nisso, o foco se direciona, e não tem mais como retroceder.”

Giana: Que práticas você adota no seu dia a dia?

Delmo: Eu gosto de simplificar. Tu não precisas separar, em casa, todos os materiais – plástico, vidro, alumínio, papel – em lixeiras diferentes. Eu separo em duas: resíduo orgânico e seco. Tenho um lixinho na pia que tem material orgânico e outra lixeira que tem material seco. A separação é básica. Importante dizer que não adianta separar o lixo e colocá-lo para fora de casa nos dias errados. Temos que saber o dia e descartar o lixo próximo ao horário de coleta. Se tu colocares o resíduo reciclável sábado à noite, ele se perde, pois não há coleta nesse dia. Faço compostagem no quintal, onde cuido do lixo orgânico produzido em casa. Os únicos materiais que seguem ao aterro sanitário são fio dental e absorventes, todo o resto é tratado na composteira. Também capto água da chuva para lavar a calçada e dar aos animais. Por 10 anos, produzi energia através de garrafa pet. No salão, separo o lixo e também capto a água da chuva. Consigo captar 3 mil litros, que são suficientes para 10 dias de trabalho.

aterro sanitário, compostagem em casa
No quintal de casa, Delmo disponibiliza todos os resíduos orgânicos (casca de ovo, erva-mate, borra de café, cascas de fruta) na composteira. Assim, reduz significativamente o volume do lixo destinado ao aterro sanitário. Faz compostagem há mais de 20 anos.

Giana: Como você despertou para esse cuidado ambiental?

Delmo: Com 14 anos, fui estudar na Escola Técnica Agrícola, a ETA, de Viamão. Em uma fala do professor Enio, “acordei” para essa questão. No próprio colégio não havia compostagem suficiente para tudo que produzíamos. Lembro que ele disse: “Até o papel higiênico daqui deveria ir para a compostagem”.

Tempos depois, fui a um churrasco na ETA e vi que os próprios alunos jogavam os resíduos dentro da mesma sacola. Essas coisas agridem. No colégio agrícola, conheci o Delvino Magro, que tinha contato com o Lutzenberger: ele me mostrou uma outra forma de ver o mundo. Lembro que ele doou a vida tentando produzir maçã orgânica, em uma época em que não havia nenhum incentivo governamental. Eu trabalhava com tomate ecológico. Quando tu tens conhecimento, não tens como voltar atrás. Depois que eu estudei, tive embates com meu pai, que é produtor rural. Acho que isso sempre acontece entre gerações, pois o conhecimento transforma.

Giana: Ouvimos dizer que deveríamos voltar a ser como nossos avós que viveram no meio rural, pois sempre foram conscientes ambientalmente.

Delmo: Não. Até hoje, o homem do campo está atrasado. O pequeno ainda está queimando as coisas de casa. Tem muita queima de lixo, e o certo a fazer é separar e destinar corretamente. O que vejo é que o pessoal do sítio adotou hábitos urbanos. Não era consciência, era naturalidade. Vou te dar um exemplo. Esta casa foi construída em 1972. Se tu vais mexer no lote, vais achar barbeador, coisas antigas enterradas atrás de casa. Não havia uma consciência. Tinha um mercadinho ao lado de casa, no meio rural, que jogava o lixo no nosso lote. Ou seja, eu terceirizava o lixo, jogava para o outro cuidar. Agora, os resíduos no campo se resolviam naturalmente porque tu jogavas a comida fora, e vinham a galinha e o porco comer. A cadeia era favorável. Eu vou aos rodeios, e muita gente de rodeio é do interior, e os vejo descartando o lixo de maneira errada.

Giana: Você é filho de produtores rurais. O campo, o meio ambiente está no seu DNA. Isso já o ajudou a ser um cidadão ambientalmente correto?

Delmo: O pai lida com gado, meus irmãos com parreiral. Sou colono. Mas não é por isso que nos tornamos cidadãos. Sempre me incomodou as pessoas não perceberem o lixo que elas mesmas produzem. Não existe jogar fora neste planeta: você só terceiriza o problema para o outro.

Giana: Como é que o técnico agrícola se tornou cabelereiro?

Delmo: Na época de estágio, trabalhei seis meses na Schio, e vi um cara cortando cabelo lá. Chamou minha atenção e comecei a cortar o cabelo de meus irmãos. No pomar, cortava dos peões. Aí a Emater promoveu um curso de cabelereiro em Monte Alegre, onde nasci. Minha mãe se inscreveu. Eu estava em casa – não é fácil iniciar na área rural – e decidi ir no lugar dela. Toda quarta-feira tinha cursinho. O professor disse que eu levava jeito. A partir daí, fui cortando e as coisas foram acontecendo.

Giana: Você também adota práticas ambientalmente corretas no salão?

Delmo: Lembro que eu separava o lixo em casa, mas não no salão. Uma das funcionárias sugeriu que separássemos um lixo para o cabelo, outro para o orgânico. E daí, foi só aumentando. Hoje separo os tubos de alumínio, das tintas, para revender. E os cabelos levo para a compostagem no sítio. Outra coisa que aconteceu no salão foi a conscientização sobre a colocação do lixo na rua. Uma vez coloquei o lixo na sexta-feira. Na segunda-feira, ele ainda estava lá, todo espalhado. Imagina a vergonha, cheio de cabelo em frente ao salão. Aí me dei conta da importância de colocar o lixo no dia certo.

lixo reciclável, captação da água da chuva
Depois das primeiras águas da chuva, Delmo capta a água para utilizá-la no salão. Na foto, a captação de água no salão e a lixeira dos resíduos recicláveis de casa.

Giana: Em um painel sobre compostagem, você destacou o respeito aos trabalhadores que recolhem o lixo.

Delmo: Imagina um dia frio, chuvoso, você correndo atrás do caminhão à noite. É gente ali, que tem família, mãe, filhos. O mínimo que temos que fazer é colocar o lixo no dia certo. Se a gente se dá conta do ser humano ali, jamais colocaria o lixo para fora de casa em um sábado. Hoje o município gasta uma fortuna com o recolhimento e destinação do lixo. Por que a pessoa não pode fazer, solucionar o seu próprio lixo com a compostagem? Tem países europeus que nem coleta em frente à residência têm, é o cidadão que leva o lixo no final da rua. Mas estamos longe disso. O lixo é um indicador de sociedades maduras. Quando resolvermos a questão do lixo, teremos resolvido muitos outros desafios. O meio ambiente está diretamente relacionado à saúde e à educação.

“Vá a um país evoluído, a questão do lixo está resolvida: produção de menos lixo, separação e destinação correta, respeito aos trabalhadores e catadores, recicladores, descarte correto evitando a poluição do lençol freático. O país que já percebeu e cuidou do seu lixo geralmente tem o IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, superior.”

Giana: Você sempre faz esse alerta para o quanto poderíamos poupar de recursos públicos se fôssemos mais responsáveis com o lixo.

Delmo: Se não me engano, em Vacaria, gastamos R$ 390 mil por mês com o lixo. Podíamos lançar os Verdinhos, agentes ambientais que educassem para a separação do lixo, para a compostagem. A médio e longo prazos, economizaríamos muito dinheiro público e teríamos um meio ambiente menos desequilibrado. O que vejo na política é gente com medo de perder voto. Se tem lei, tem que cobrar. Se tem uma lei que diz que pune quem joga lixo em terreno baldio, por que não há a fiscalização? Acho que as escolas também têm um papel fundamental no despertar de consciências. Se lá tem cem pessoas, mas cinco mudam de comportamento, já são cinco fazendo. Quanto mais falarmos do assunto, mais despertamos. De duas, uma: ou a pessoa fica com raiva ou muda. Eu levei a sério a compostagem depois de uma iniciativa que vi na Escola Duque de Caxias. Minha esposa era professora lá e me levou para conhecer a compostagem feita na escola, implantada pelo Giovani Rossi. Na mesma semana, comprei minha composteira e comecei a fazer.

Giana: Para quem não faz nada hoje, em práticas ambientais, por onde deve começar?

Delmo: Em casa, separando material orgânico e seco e cuidando para colocar o lixo nos dias certos de coleta.

Giana: Quando começamos a separar o lixo em casa nos damos conta de quanto produzimos. Você mudou o seu padrão de consumo a partir do momento que começou a separar o lixo?

Delmo: Não, porque sempre fui pouco consumista. Acho que sempre fui assim, gringo, econômico. Um gringo consciente ambientalmente.

Giana: Estamos em plena época de Natal, quando a economia está mais aquecida e muita gente troca presentes. Como ser ambientalmente atento nessa época? Pergunto isso porque me choca o volume de lixo resultante das embalagens de presentes. Se compramos uma camisola, por exemplo, ela vem dentro de um papel de seda, de uma caixa, de uma sacola, com fita e cartão pendurado. Pedir menos embalagens pode ser uma atitude consciente?

Delmo: Certamente. Nós nem trocamos muitos presentes em casa, pois sabemos do apelo comercial dessas datas. Então, para mim, não muda. Quanto às embalagens, é preciso ganhar consciência nisso. Eu, na grande maioria das vezes, levo minha sacola de pano no mercado, para evitar o consumo de plástico.

minhocas californianas
Delmo também cria galinhas no quintal de casa, que se alimentam das minhocas que se multiplicam com a compostagem.

Giana: Não lhe incomoda o fato de você cuidar do lixo, separar, cuidar dos recursos naturais, e os outros não?

Delmo: Cada um vai criando uma visão quando sai na rua. Eu vou, seguidamente, para o trabalho a pé. Eu vejo o lixo na rua, o plástico entrando na boca de lobo. Eu chegava com muita coisa na mão, ia juntando, me incomodava. Eu tinha vergonha de juntar, hoje não tenho mais. Sempre digo que cada um tem o seu tempo de despertar.

Giana: Mas o despertar é urgente, pois a cada ano que passa esgotamos os recursos naturais com muito mais velocidade do que a Terra tem de se recompor, o chamado orçamento natural. Desde 1970, é feita a comparação entre o que extraímos da natureza e sua capacidade de regeneração, lançando dentro do ano a data em que já extraímos tudo que podemos devolver, o conhecido dia de sobrecarga da Terra. Em 2019, foi no dia 29 de julho, o que é apavorante.

Delmo: Tudo é uma questão de sensibilidade com as coisas. Tem gente que não está nem aí. Há muita diferença entre falar e fazer. Precisamos falar muito nessa questão. As informações estão aí, isso é latente.

Para saber mais sobre o Dia de Sobrecarga da Terra: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/07/29/sobrecarga-da-terra-2019-planeta-atinge-esgotamento-de-recursos-naturais-mais-cedo-em-toda-a-serie-historica.ghtml

Giana: Que sensação lhe dá quando você age ambientalmente corretamente?

Delmo: Eu me sinto cidadão, consciente do todo. Mesmo assim, sinto-me pouco engajado na sociedade, pois a minha profissão me toma muito tempo. Mas sinto-me responsável no que posso fazer, faço a minha parte ambientalmente e, socialmente, proporciono o primeiro emprego a muita gente.

por Giana Pontalti | dezembro de 2019

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