Elenara Velho, uma legítima gaúcha

Especial 20 de setembro

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Próximos ao Dia dos Gaúchos, 20 de Setembro, apresentamos Elenara Velho, uma autêntica gaúcha que de velha não tem nada, só a sabedoria. Diferente de muita gente que fez o caminho do campo às cidades, ela escolheu viver no campo e escrever nele a sua história.

Esta é a primeira vez que Made in Vacaria conta a trajetória de alguém que não nasceu em Vacaria, mas que veio de logo ali, da vizinha Bom Jesus. Elenara Velho tem em seu DNA um amor comum a muitos vacarienses: o amor pelo cavalo.

Uma gaúcha que escancara o amor pelo Rio Grande e pelos bichos | arquivo pessoal

PAMPA QUE HERDEI DE MEU PAI

“Eu até entendo algumas pessoas largarem o meio rural para buscar melhores condições de vida no meio urbano. Às vezes, a vida nos impõe essa necessidade. Eu  optei pelo campo, pois preciso ver o horizonte verde para ser feliz. Preciso estar perto das coisas de que gosto. A minha essência está no meio rural, perto dos meus cavalos”, revela.

Vista do hotel-fazenda onde Elenara trabalha: o horizonte verde. | Foto: Giana Pontalti

O amor pelos gigantes de quatro patas surgiu ainda na infância e definiu o seu destino. “Meus pais, Celso e Zilá, são do meio rural, sempre vivemos do gado, dos cavalos, da lavoura, da produção de queijo. Meus tios e padrinhos adoravam cavalos. Lembro-me do tempo em que moramos em Gramado. Todas as sextas-feiras, meu pai tinha que me levar de volta ao sítio, pois eu sentia uma saudade imensa dos bichos”, conta. Desde a adolescência, ela traçou para si o desejo de viver junto aos cavalos e determinou que quando pudesse pagar as despesas com o cuidado deles, retornaria.

Aos 43 anos, Elenara vive rodeada de nove cães e sete cavalos. “Digo que tenho seis cavalos e meio: a Moura, que é a minha égua de confiança, a mais madura; tem o Guri, a Pitanga, a Atena, o Baio, a Rosinha e o Apache, um pequeno pônei”, conta. É com toda essa tropa que Elenara grande parte de seus dias e, também, trabalha. Há um ano e quatro meses, ela é a guia dos passeios turísticos da Estância das Flores, um hotel-fazenda na divisa de Bom Jesus com São José dos Ausentes. “Fiz vários cursos de turismo rural. Sou uma profissional de turismo equestre. Promovo cavalgadas que podem durar de uma hora até uma semana inteira”, explica.

É em cima de um cavalo que a bonjesuense mais gosta de estar. “Galopar e sentir o vento me dá uma imensa sensação de liberdade. É na cavalgada que a pessoa se solta para o mundo. A gente convive três dias com um turista, e é na cavalgada que ele fala de si, se apresenta”, destaca.

Toda a semana chegam à fazenda turistas de todo o Brasil, e estrangeiros, também. “Recebemos paulistas, mineiros, paranaenses, gente da grande Porto Alegre. Tem duas agências belgas que vendem os meus passeios. Já recebemos belgas, australianos, holandeses, britânicos e americanos. Em um ano e pouco, a gente já deu uma pincelada por todo o mundo a partir da Estância”, conta orgulhosa.

A gaúcha, de sotaque carregado e voz forte, recebe a cada um que chega. É  hospitaleira e aproveita a interação para logo aprender e ensinar.  “Acho que em cada hóspede eu lanço a sementinha de amor à terra e de respeito aos cavalos. Tenho um orgulho gigantesco de ter nascido no Rio Grande do Sul. Sou uma tradicionalista. Leio muito, estudo muito outras culturas, e ainda acho que a minha é mais bonita: um povo maltrapilho que lutou contra um exército em busca de três grandes ideais, que fez a revolução farroupilha”.

Engana-se quem pensa que por ser uma mulher campeira e tradicionalista, Elenara se feche a outras culturas. “Tu não podes se bitolar e viver de uma forma só. Aprendo sobre a história de cada povo com cada visitante. Sou gaúcha e gosto de cavalo, mas não é por isso que vou ouvir só Marenco. Têm uma vastidão de culturas no mundo que podem nos acrescentar”, afirma.

Na fazenda, moram apenas quatro pessoas. Elenara é a única mulher. Todos se revezam no cuidado do hotel, mas é ela quem conduz os passeios. “Tem gente que chega com medo do cavalo, por ser um bicho forte e grande. No primeiro dia, passa a mão, faz um carinho. No segundo, monta, mas não sai do lugar. No terceiro, faz um passeio e se revela. A cavalgada faz você ultrapassar barreiras, é a beleza dela”, destaca.

LUGAR DE GAÚCHA É ONDE ELA QUISER

Elenara enche-se de orgulho para afirmar a sua origem. Já na vestimenta, de bombachinha, camisa e bota, pronta para a montaria, afirma a sua identidade. Mas ninguém pense que ela pode ser enquadrada em algum estereótipo.

Como a maioria das mulheres, ela cuida da casa, mas é da lida campeira. Tem a cavalgada como esporte e trabalho, mas já jogou muito vôlei e lutou jiu-jitsu. Conduz cavalo, mas também gosta de pilotar uma moto. Gosta de acordar ouvindo Mano Lima e vai dormir ao som de Beethoven. Curte também o samba raiz. Lê Luiz Fernando e Erico Veríssimo, mas por cabeceira descansam livros de todo lugar, e também os espíritas. Gosta de viver no campo, mas também de pegar uma BR lotada de carros para viajar. É uma mulher plural.

“A mulher gaúcha, e isso faz parte da nossa cultura, sempre cuidou do lar e das crias. Mas quando aconteceu a revolução farroupilha, elas assumiram todo o trabalho das estâncias. Os pais, irmãos e peões foram para os campos de batalha, para a peleia. Quem ficou fazendo o manejo do gado, tirando terneiro de vaca que não tinha dilatação suficiente para fazer um parto foram às mulheres. Elas araram o campo, prepararam a terra para o plantio. As mulheres se responsabilizaram por todas as atividades”, pontua.

Desde pequena, Elenara foi apresentada a várias atividades. “Fui a primeira filha da família. Meu pai me levava trabalhar nas  mangueiras junto aos peões. Sempre me ensinou a lida campeira, e eu honro muito a minha história. Sofri preconceito, não foi fácil, pois ouvia muita gente dizer que eu era o guri do meu pai”, recorda.

Ela sente orgulho, também, das gurias de hoje que escolheram viver no campo e se divertir nos rodeios. “Tem muita mulher que sabe manejar o gado, vacinar, castrar. Quando eu era pequena, isso não era visto com bons olhos. Gosto de ver essa meninada que põe as botas, pega o laço, boleia 8 metros e vai ao rodeio laçar de pai e filha, de laço prenda”, reforça.

Uma gaúcha que honra sua herança gaúcha. | arquivo pessoal

UMA MULHER “FACA NA BOTA”

Elenara é uma mulher faca na bota. Ou, melhor dizendo: com uma faca na bota. “Costumo dizer que a faca para o gaúcho não é uma arma, é um instrumento de trabalho. Ela ajuda a tirar uma pedra do casco do cavalo, a cortar mato”, explica. Diferente dos peões que carregam a faca à cintura, ela leva a sua na bota. “Como sempre fui muito moleca, tinha medo de cair e me machucar com a faca. Por isso, guardo na bainha, dentro do cano da bota”, conta.

É faca na bota – severa – quando avista alguém desrespeitando à natureza. “Se tem uma coisa que me entristece profundamente é o descaso do ser humano com o planeta, com o meio onde vive”, sentencia. Elenara sofre ao ver a falta de consciência ambiental.

“A raça humana precisa acordar de um sono já bastante tardio. É muito visível a degradação do planeta. O aquecimento global é fruto da causa humana, da ganância humana, do culto ao dinheiro.  As pessoas falam, falam do desrespeito ambiental, mas vejo muito pouca atitude. A maioria dos que agem para proteger nem falam. Eu levo gente para passear nos cânions de São José dos Ausentes, que é rodeado de natureza viva. Chegamos lá, tem lixo por todo o lugar, e na borda do cânion tem uma 4×4 estacionada. Não há mais proteção”, frisa.

Foto: arquivo pessoal

CAVALOS DE ARREIO E OS APORREADOS

O respeito aos cavalos é um valor intocável para Elenara, independente de eles serem domados ou não. “O cavalo é a extensão do gaúcho. Tu não és campeiro a pé. Tu não fazes a lida do gado a pé”, lembra. Se em uma montaria, percebe alguém maltratando um dos cavalos, não hesita: manda baixar. “Os bichos transmitem toda a sua alma nos olhos. Quando estão com dor, pedem ajuda pelo olhar. Os cavalos e os cães, assim como nós, têm sua personalidade. Consideram da família quem os trata e cuida. São incapazes de dar um coice ou morder”, diz. Por isso, ela está sempre pronta a ajudar os seus bichos e mais um montão de outros. Elenara faz parte de uma entidade de proteção aos animais.

“Quando pequena eu queria ser veterinária. Cursei um tempo, mas precisei parar”, revela. Mesmo sem o conhecimento formal da faculdade, aprendeu com o pai a cuidar dos bichos. “O homem rural tem olhos muito clínicos para definir se um boi está doente. Nem sempre a gente precisa de um médico veterinário. O homem rural, com toda a sua experiência, consegue diagnosticar e atender muitas das demandas”, conta.

E é com olhos clínicos que ela analisa os cavalos de tropilhas, estinados a corcovear nos rodeios.  “A gente vê muita gente falando do cavalo de tropilha sem saber. Tenho muitos amigos tropilheiros Brasil a fora. O cavalo ‘aporreado’ é extremamente bem cuidado. Os que conheço vivem em lavoura de capim, alimentam-se de trevo, que é extremamente nutritivo. São casqueados, tosados, desverminados na época certa. Eles são as estrelas dos rodeios. Pulam, no máximo, duas gineteadas em um rodeio. Tu olhas os bichos e vês que estão bem cuidados, gordos. Claro que, eventualmente, acontece de se machucar. Mas daí é atendido, medicado, cuidado”, explica.

Elenara é uma defensora das provas campeiras nos Rodeios. E sempre que pode, ela as prestigia.

Uma das muitas cavalgadas que conduz | arquivo pessoal

DE CABELOS E SONHOS LONGOS

Aos 43, Elenara sente-se feliz pela vida que conquistou. E bonita também. “A vaidade que gosto de ter é as melenas longas. Muitas mulheres cortam o cabelo ao envelhecer. Pretendo deixar os meus sempre longos”, confessa.

Longo é também o seu desejo de viajar. Para completar a alegria de viver, como ela mesma diz, basta apenas carimbar o passaporte: “Sou feliz, vivo do cavalo, algo que escolhi para mim. Para complementar, quero chegar aos 53 com muitas viagens. Quero fazer a cavalo o caminho de Santiago de Compostela. Quero, também, conhecer Nebraska, nos Estados Unidos, que tem uma pecuária de ponta, e os ranchos da Austrália. As viagens que pretendo fazer, com certeza, incluem um cavalo”, conta.

Que essa forte gaúcha possa desfrutar seus galopes por muitos anos ainda.

 

por Giana Pontalti | setembro de 2019.

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