Mãe Terra: especial Dia das Mães

A Terra é uma só.

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O lugar mais seguro do mundo é o colo de mãe. É nele que o bebê para de chorar, que a criança se abastece de afago. É no colo de mãe que o adolescente ameniza a frustração, e o adulto, em qualquer momento, ganha proteção. Ficar perto da mãe é ficar perto da nossa essência.

Neste Dia das Mães singular, de 2020, o Made in Vacaria convida você a pensar no essencial.  Em meio à pandemia do novo coronavírus, a mãe comum que eu, você e a humanidade temos está nos convocando a silenciar e refletir. A Mãe Terra acolhe a todos, sem distinção, mas clama por reconexão.

Mãe Natureza, Mãe Terra, Gaia. Fonte: Pixabay

Maio atípico esse em que muitos de nós estaremos distantes de nossas mães, seja geograficamente ou pela necessidade de isolamento social. Por isso, convidamos um time seleto para conversar sobre o distanciamento humano da natureza:  Tainá Orsi, atriz vacariense que mora em uma aldeia guarani; Marli Borsoi, bióloga e consultora ambiental; dom Silvio Guterres Dutra, bispo diocesano de Vacaria; Jaime Perin, presidente da União espírita de Vacaria; e Laura Grandi, terapeuta holística. Eles nos ajudam a refletir sobre a pandemia e o que temos a aprender com ela.

A conversa/entrevista na íntegra está disponível: https://www.youtube.com/watch?v=RfQejIVwXlY 

TUDO QUE TEM VIDA MERECE RESPEITO

Os povos originários sabiamente chamam a Terra de Mãe. Foram eles os pioneiros a observar e compreender que a Terra é viva, fecunda, geradora de vida.

Longe de ser romântico ou utópico, o conceito de Mãe Terra é abrangente e reconhecido pela ciência, pois demonstra a relação de interdependência de todos os seres que na Terra habitam. A Grande Mãe, também chamada de Gaia ou Pacha Mama, pulsa, assim como nossas mães biológicas, e tem como filhos os animais, as plantas, os minerais, os micro-organismos, que já habitavam o planeta muito antes de nós, hoje 7,5 bilhões de pessoas.

Essa Mãe fornece tudo o que precisamos para o bem viver. Mas a extração compulsiva de seus recursos a sobrecarregou. A produção crescente de produtos, bens de consumo e serviços poluiu o ar, contaminou as águas, inundou os solos de agrotóxicos. A Mãe Terra está doente. E nesse Dia das Mães, pede atenção. A boa notícia é que ela dispõe de mecanismos de autorregulação. A pandemia pode ser um deles.

“Todos os reinos da natureza, o mineral, o vegetal, o animal e o hominal são oriundos do grande Criador. Eles devem estar em harmonia e sintonia entre si. Toda a vez que essa harmonia e sintonia não acontece, alguém adoece. Seguramente hoje, o planeta Terra passa por um momento em que responde, um pouco, por como nós humanos o tratamos”, explica Jaime Perin.

“Talvez algumas coisas que acontecem no decorrer na vida humana sejam formas de frear um pouco as coisas, quando elas estão avançando sem controle. Quando imaginávamos viver o que vivemos hoje, com essa pandemia? Ela chegou sem avisar, de uma hora para a outra, e estamos repensando a nossa forma de agir e estar no mundo”, diz Marli Borsoi.

“O Papa Francisco nos lembra da nossa ilusão em nos mantermos saudáveis. Como vamos estar saudáveis em um mundo doente?”, alerta dom Silvio Guterres.

Laura Grandi é terapeuta holística.

 

“A pandemia nos convida a silenciarmos, a olharmos para dentro. Nós estamos mais silenciosos. É o silêncio diante da perplexidade. A Mãe Terra ordenou, enfática e firmemente: olha o que você está fazendo comigo! A ordem foi essa. Nós terráqueos estamos muito voltados para fora, olhando para o fazer, o ter, os consumos exagerados, os estímulos digitais, e sensoriais, para o barulho”, comenta Laura Grandi.

“Aos 108 anos, o fundador da aldeia onde vivo diz que o que mais o deixa triste é ver que Nhanderú, Deus guarani, deixou tudo para nós, e hoje brigamos por uma coisa que é de todo mundo. Essa singela expressão do seu Alcindo nos mostra como estamos perdidos, desconectados da Mãe Terra”, alerta Tainá Orsi.

A vacariense Tainá mora na aldeia guarani em Biguaçu, SC. Na foto, ela aparece com o padrinho Marcelo Karai Ryapu Whera Mirim. Tainá é atriz e atua na Tribo Pachorra Teatro Livre.

Os indígenas, acostumados a viver integrados à natureza, percebem com maior lucidez as mudanças do meio ambiente. Para caçar, precisam ir cada vez mais longe, pois a destruição dos habitats expulsa e faz migrar ou morrer os animais. Eles sabem que a Terra não é propriedade de ninguém. Quando lutam por territórios, lutam pelo direito de estar neles, de estar em uma floresta e mantê-la em pé, garantindo a sua subsistência e a das gerações futuras.

A SOBRECARGA DA TERRA

Desde 1970, as pautas ambientais conquistam espaço nas mídias e nas conferências mundiais. Já são 50 anos (pasmem) de preocupações e alertas. Não são raras as informações sobre o degelo das calotas polares e os desmatamentos. Há enchentes de um lado, e estiagens de outro. Diariamente, fotos dos lixões oceânicos, que fazem sofrer e morrer animais e corais, invadem as redes sociais. É notícia a escassez de água em muitos países, e a falta de tratamento de esgoto em quase todos eles. Sabemos que muitos alimentos são desperdiçados enquanto 1 bilhão de pessoas ainda vivem na miséria. Informações ambientais não nos faltam. Mas por que, diante dessa avalanche de informações, não mudamos nossas ações?

Jaime Perin, presidente da União espírita de Vacaria.

 

“Quem de nós hoje não sabe que não deveríamos poluir as águas, as terras, o ar? Nós sabemos. Mas não internalizamos isso. Então, ou nos ajustamos à lei do universo ou a própria natureza encontra os mecanismos de botar o carro encima do trilho novamente”, diz Perin.  

 

 

 

“O que a Terra clama é o que já estava sendo dito há muito tempo pelas lideranças indígenas, sobre o que viria. É um momento para voltarmos a escutar, a sentir a terra. Muitos ainda não conseguem sentir e ouvir. Acredito que agora é o momento que precisamos fazer uma mudança em relação àquilo que está sendo claramente visto por todos nós”, diz Tainá.

Em 2019, o Dia de Sobrecarga da Terra foi atingido em 29 de julho. Significa dizer que, em julho, já havíamos extraído mais recursos da Terra em sete meses do que ela tem capacidade de renovar em um ano. O cálculo é feito pela Global Footprint Network, e a data é um indicador do esgotamento de recursos.

Todos nós impactamos a Terra, mais ou menos. Mas nos últimos anos, a sociedade tem consumido de forma voraz, produzindo e descartando produtos e bens a uma velocidade impressionante, avançando para o colapso ambiental.

Dom Silvio Guterres, bispo diocesano de Vacaria.

“A cultura ocidental, especialmente depois da industrialização, nos afastou muito da natureza. A técnica em si não é um mal, mas o tecnicismo é. Engana-se quem acha que a técnica vai salvar o planeta. Sempre tem gente apontando para a evolução da técnica, dizendo que ela vai gerar a sustentabilidade. Mas, passa uma década, passa outra, outra mais, e não vemos isso acontecer”, destaca dom Silvio. “Francisco de Assis foi escolhido como símbolo, pelo Papa, não só pela questão da ecologia, mas porque também era despojado das ostentações. O Papa Francisco tem sido o modelo do essencial”, explica.

ESSENCIAL X SUPÉRFLUO, CONSUMO X CONSUMISMO

A Terra é a fonte de todos, absolutamente todos os recursos de que precisamos para o bem viver. O ar que ingressa em nossas narinas agora é Mãe Terra. A cadeira, o sofá ou a cama em que nos apoiamos neste momento tem madeira, tecidos, metais que são fornecidos pela Terra. O computador ou o celular que permite a você acessar este texto é feito com elementos da Terra. Tudo vem dela. E não há problema em consumir, de maneira sustentável. O grande desafio é ampliarmos a consciência sobre os nossos hábitos e questionarmos sobre o que, de fato, é essencial e o que é supérfluo.

Marli Borsoi é bióloga. É professora, educadora e consultora ambiental.

 

“Desde que nascemos, causamos impacto. Desde bebês, a fralda, por exemplo, já é um impacto. O aumento da população mundial passa por demandas cada vez maiores e é preciso, em nível planetário, que essa consciência comece a tomar forma para todas as pessoas”, diz Marli.

 

 

 

A pandemia nos ajuda a percebermos o essencial. Durante a quarentena, apenas os serviços essenciais podem operar. Uma outra forma de nos darmos conta do essencial é calcularmos a nossa “pegada ecológica” que aponta quantos planetas Terra seriam necessários se todos tivessem os mesmos hábitos de consumo que nós. O cálculo leva em consideração a nossa relação com os alimentos (o que comemos, onde compramos, se plantamos), com o consumo de roupas (quanta roupas utilizamos, de qual procedência), utensílios domésticos (quantos objetos temos dentro de casa, em que velocidade os repomos), transporte (como nos movemos e com que frequência), tecnologias (quantas consumimos, por quanto tempo), entre muitos outros fatores.

“O que impera, hoje, é o olhar da exploração: o que eu posso tirar da Terra, para o benefício meu ou para o benefício de um tal ‘progresso’? O que é mais progressista, um índio que preserva a natureza na Amazônia, que a ama e que tem um relacionamento harmonioso com ela, ou o branco, por exemplo, urbano, ocidental que levanta a bandeira do progresso e destrói a Casa Comum? Nesse caso, os indígenas têm muito mais consciência da evolução humana do que nós”, diz dom Silvio.

“Nós somos livres para fazer o que quisermos, porém responderemos sempre por aquilo que fizermos, a opção, tanto em termos pessoais como coletivos. Como ainda somos espíritos imperfeitos, as nossas escolhas ainda são focadas no plano material. Ainda não nos demos conta, como regra geral, que não somos só essa parte material, biológica, mas psicológica, com responsabilidades sociais”, afirma Perin.

MUDANÇA INDIVIDUAL, COLETIVA E INSTITUCIONAL 

A conexão mãe e filho é surpreendente. As mães e os filhos sabem quando não estão bem: seja pelo olhar, pela voz, pelo comportamento, por pura intuição. Em nosso íntimo, sabemos do pulsar acelerado da Terra e do nosso também. Estamos sendo convidados, nesse especial momento histórico, a desacelerar e realizar a reconexão.

“O vocabulário guarani é muito interessante. A palavra endu, por exemplo, significa tanto ouvir, quanto sentir. Não se separa o ouvir do sentir, eles são a mesma coisa. E nós precisamos ouvir a Terra”, diz Tainá.  

“O Papa nos chama para o resgate do que chamamos de Teologia da Criação, pois se perdeu a visão do todo, de que todas as coisas estão interligadas. A teoria reforça a bondade e a dignidade original, que reforça que tudo o que foi criado tem sua dignidade. Quem dá valor às coisas criadas não somos nós, por termos sido privilegiados de recebermos a capacidade racional. A nossa capacidade racional deveria ser para nos aproximarmos daquilo que está no projeto de Deus e sermos colaboradores de Deus”, diz dom Silvio.

“Eu vejo hoje muita gente, que vai fazer um negócio, um empreendimento, preocupada também com a questão ambiental. Antigamente não se via tanto isso. Acho que estamos mais sensibilizados com a questão ambiental, mas ainda não é prioridade. Penso que se a nossa sociedade quiser continuar existindo, se quisermos ter um nível bom de vida para as pessoas e países é preciso que cada vez mais os governos invistam nessa área de melhoria” , destaca Marli.

“Imaginemos nós, em pleno Século XXI, ainda com estas questões, da Amazônia, das águas. Nada funciona sem o ser humano, mas nada se mantém sem as instituições. Quando as instituições humanas tratarem as leis divinas, aí sim estaremos em sintonia, harmonia, felicidade. Toda a vez que nos afastamos dessas leis divinas, sofremos as suas consequências”, diz Perin.

 

VOLTA PRA CASA

“A pandemia vai passar e vamos nos dar conta de que ela foi necessária. Pode ser até que a gente agradeça. Teve dor, perdas: é a forma como a Mãe Terra nos ensina caso insistamos em não enxergar, agirmos como alienígenas, repetindo padrões terráqueos, vencidos. O convite agora é para pensarmos: quais as mudanças que eu posso fazer a partir de agora? Quais as bagagens de que eu posso me desafazer? Qual é o meu novo acordo com a Mãe Terra?”, reflete Laura.

Neste Dia das Mães, nessa semana, tomara que você possa estar pertinho da sua mãe, biológica ou adotiva, quem sabe ela já tenha partido. Mas aproxime-se também da mãe maior: a Mãe Terra. É ela que agora está pedindo colo e novas ações.

“Mesmo já tendo avançado um pouco nesse processo evolutivo, pois conseguimos conquistar algumas coisas positivas e corretas, ainda trazemos dentro de nós, como indivíduos e coletividade, vícios e situações que nós não só nos ferimos a nós mesmos, como ao conjunto. Como humanidade, estamos deseducados. Não entendemos a lei geral que rege o universo, de igualdade, equidade, justiça para todos”, explica Perin.

Tudo o que vive tem valor. Mais amor, por favor. Feliz dia!

por Giana Pontalti | maio de 2020

Acesse a entrevista na íntegra:

1 COMENTÁRIO

  1. Amar antes de tudo o todo universal!
    Precisamos da verdade!
    Se conseguirmos conhecer e entender nosso próprio corpo e pensamento; (a casa interna que moramos); a ponto de transcender para o universo, acredito no passo para evolução.
    Essa incapacidade universal de reagirmos em benefício da nossa casa comum, da nossa mãe Terra e perceber o outro e querer o bem… ter muito para não ter nada…massa humana egocêntrica…só uma energia superior magnânima pra nos aguentar e suportar.
    Quem sabe tenha chegado o tempo dos passos para a verdadeira riqueza? “Pandemia”???

    Necessário pesquisa, muito estudo, pensar, escutar o que o planeta tem pra contar, desprendimento…comecemos por erguer os olhos, olhar para cima… bem pra cima… além…

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