Vika Martins, arquiteta sustentável

A vacariense que planeja ambientes que favorecem o desenvolvimento humano

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Quando menina, ela pensava grande e coletivamente: queria salvar o mundo. Aos 47 anos, madura e experiente, Viviane Martins continua pensando assim. Para Vika, o mundo precisa ser acolhedor para todos que nele habitam, precisa dar condições para que o ser humano se desenvolva. A consciência coletiva, germinada precocemente na vacariense, é fruto dos ensinamentos da mãe Helena, produtora rural e uma das primeiras ecologistas de Vacaria.

“Cresci na chácara de minha família, no meio rural. A nossa casa não tinha luz, nem banheiro. O banheiro foi meu pai, Gilberto, que construiu. Das restrições materiais, quase nem me lembro. Lembro que eu tive a infância mais feliz que uma criança podia ter”, conta. A memória de infância – de uma criança solta, rodeada de árvores, animais e muito amor – moldou a sua concepção de lar, o que mais tarde direcionaria seus projetos.

Vika na área rural onde passou a infância e em Fernando de Noronha, onde realiza diversos trabalhos.

Vika Martins é arquiteta e urbanista graduada pela Unisinos e mestre em desenvolvimento rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É especialista em permacultura e biogeologia pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas do Pampa e consultora do Funbio, Fundo Brasileiro para a Biodiversidade.

“Desde formada, eu faço arquitetura sustentável. Foi uma decisão importante que tomei: ou eu trabalhava com arquitetura sustentável ou não trabalhava. Foi bem difícil no começo, todos diziam que eu ia morrer de fome, mas deu certo. Tomei essa decisão há mais de 20 anos, época em que mal se falava em sustentabilidade”, lembra.  

Vika com os pais.

No dia de sua formatura, a jovem já colocava em prática o que defendia. Sua festa foi organizada enaltecendo a casa onde nascera e os seus pais. “Apresentei fotos da casa onde morávamos e todos os alimentos – pães, queijos – foram feitos pelas mãos de seus pais. Eu me sinto especial por ser do campo”, salienta.

 

SUSTENTABILIDADE NA PRÁTICA 

Projetar casas com telhados verdes, planejar ambientes que captem e aproveitem as águas da chuva, arquitetar prédios que privilegiem a iluminação e ventilação natural, construir imóveis com placas solares são ferramentas da arquitetura sustentável, mas não a definem. Vika explica que a arquitetura sustentável vai muito além da utilização de instrumentos que tornam mais sustentáveis os projetos.

“Hoje, precisamos de uma redundância para chegar à sustentabilidade dentro da arquitetura. Todas as profissões deveriam ser sustentáveis, responsáveis e justas. Sustentabilidade é quando a gente consegue ter uma relação integral com o nosso ser e o meio em que a gente vive. Quando eu penso em um espaço, penso como as pessoas vão se relacionar entre si. O quanto de potência a arquitetura traz para essas pessoas”, diz.

Vika nos convida a pensar a arquitetura fora do padrão convencional.  “Se formos tratar da questão da saúde na arquitetura – não da arquitetura para construir um consultório, uma farmácia, um hospital, mas daquela que pensa o ambiente saudável – vamos encontrar vários estudos que dizem que a relação que temos com o espaço pode nos adoecer ou potencializar. Se moramos em um ambiente cheio de ruídos, é claro que isso impacta o nosso ser. Se utilizamos tintas tóxicas para pintar a casa, é claro que impacta o nosso ser. Mas não ser sozinho, ter locais de encontro e troca, também impacta. A arquitetura não é só o espaço privado, é também o coletivo. Todos esses aspectos fazem com que sejamos mais saudáveis física e psicologicamente”, comenta.

DESEJOS COMO ALICERCE

A arquitetura sustentável cria espaços a partir dos desejos de cada ser humano. “É muito comum as pessoas chegarem com o pedido: dois quartos, sala, cozinha, área de serviço. Isto porque a gente não consegue pensar fora desse quadrado. Às vezes, você tem desejos em relação ao espaço que nem imagina! E eles vão aflorar no processo projetual, quando se permite encontrar o que se quer para poder se desenvolver”, pontua.

Para planejar ambientes sustentáveis, é preciso desconstruir o conceito que carregamos de arquitetura, geralmente standard. “O problema da padronização é que ela tolhe as pessoas, e as prepara para um mesmo padrão de comportamento. A arquitetura sustentável nos convida a pensar outras formas de estarmos no mundo”, diz.

E Vika sabe que não é simples pensar fora da caixa. Ela explica que é muito procurada para planejar ambientes baseados nos desejos das pessoas, mas que esses ambientes nem sempre chegam a ser concretizados. Tanto o arquiteto quanto o cliente precisam encarar a mesma questão: “O risco de cair no padrão da arquitetura é grande, para os dois lados, porque o condicionante socioeconômico é tão importante, que é preciso ter coragem para encarar, fazer algo diferente do que a sociedade já faz”.

DEMANDAS POR PROJETOS SUSTENTÁVEIS

“Minha demanda é por sustentabilidade, ambiental, social e financeira” analisa. “Tem aqueles que me procuram para construir a sua casa, a sua residência. São pessoas que estão investindo em uma vida mais saudável, querem estar em um ambiente com melhor integração à natureza. Tem os que querem construir negócios sustentáveis, de famílias que estão em um processo de mudança de paradigma. É gente que quer fazer do seu morar, o seu negócio. São pessoas do turismo sustentável, do turismo de aventura, dos centros ecológicos, da agroecologia. Trabalho também com instituições, com projetos para unidades de conservação ambiental, com entidades que querem fazer a sua sede. Pela Funbio, integro equipes de projetos como o Tamar, no Espírito Santo, e o da Associação Peixe-Boi, na Costa dos Corais, em Alagoas. Tem, ainda, o pessoal dos movimentos sociais. Adoro fazer os empreendimentos porque são espaços em que a pessoa está se ajudando, se desenvolvendo e, também, ajudando outras pessoas”, salienta.

Pedra D´Mim, centro ecológico em Tamanduá, Rio Grande do Sul. Projeto e obra de Vika Martins.

Os projetos de Vika são assinados, em sua maioria, pela Ohásis Arquitetura Sustentável, escritório em que é sócia, localizado em Porto Alegre. A vacariense, no entanto, atua em todo o território nacional.

“Eu preciso circular, estar em movimento. E sou muito privilegiada porque o meu trabalho me deu oportunidade de conhecer lugares como o Parque do Xingú, reserva indígena, e muita gente linda. É uma benção que Deus me deu”, avalia.

Apresentando o projeto de casas indígenas para o Cacique do sul do Pará, Baixo Xingu, dentro da Floresta Amazônica.

Vika tem muito trabalho, mas dedica parte de sua agenda para projetos voluntários. “Em um país em que poucos estudantes conseguem chegar à universidade, é um absurdo você se formar e não dispor de parte de seu tempo para o viés social. Eu dedico um mês por ano para fazer trabalhos voluntários. Agora, estou envolvida com o projeto do estaleiro da Associação de pescadores de Fernando de Noronha e com o projeto do Memorial histórico-cultural indígena, de uma comunidade cainguangue em São Leopoldo”.

E é nos trabalhos sociais que Vika redobra a atenção. “Procuro sempre cuidar para não cair no erro de ser arrogante e querer imprimir ao outro o que eu acho é bom. É preciso ter humildade para realmente entender o outro”, alerta.

Vika Martins recebendo, em 2015, o prêmio Arquiteta do Ano – Setor privado, conferido pela Federação Nacional dos Arquitetos.

GENTE QUE INSPIRA

A primeira grande inspiração na vida de Vika foi Helena. A mãe foi quem a motivou a ingressar na arquitetura. “Eu pensei em fazer agronomia. Minha mãe, muito perspicaz, viu que eu gostava de artes e me incentivou a fazer o curso”, revela.

Hoje, muitos colegas a inspiram. Vika admira o trabalho de Tomaz Lotufo, que criou uma escola experimental de arquitetura no interior de São Paulo. Ela também gosta de Johan Van Lengen, do Instituto Tibá e, na academia, destaca a produção científica de Iazana Guizzo, da Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro.

“Iazana é de Caxias do Sul, mas mora no Rio. Ela montou um currículo incrível de arquitetura”, diz.

Vika já deu aula, mas a academia não é o seu chão. “Acho que a gente vive uma realidade das universidades no Brasil que é muito preocupante. O ensino privado está sendo absorvido por grandes multinacionais que entendem o ensino como um nicho de mercado. Não só a arquitetura, mas a grande maioria dos cursos, já desenhados, atendem à demanda de mercado, não às da sociedade. Claro que o mercado faz parte, mas hoje o que manda na produção acadêmica é o mercado”, lamenta.

PROJETO POLÍTICO PARA MUDAR AS CIDADES

Vika lamenta, também, a falta de projeto político que leve a sério o planejamento das cidades: “Para arrumar a casa, o desordenamento das cidades no Brasil, precisamos de vontade política, porque conhecimento técnico e ferramenta jurídica a gente já tem. O Estatuto das Cidades é um superferramental para que as  cidades sejam mais sustentáveis, foi uma conquista dos movimentos sociais. Se houvesse continuidade, teríamos hoje melhores condições de habitabilidade urbana”.

A arquiteta já atuou no serviço público, e fala com propriedade dele. Foi chefe do setor de regularização fundiária da Prefeitura de São Leopoldo. “O setor público tem muita possibilidade de exercer a responsabilidade social. Claro que há limitação política, mesmo assim existe um espaço de possibilidades”, destaca.

Ela lembra que um arquiteto autônomo não está isento da responsabilidade social: “Mesmo que você esteja planejamento a lojinha de alguém, todas as edificações estão inseridas na cidade, e a cidade é um órgão social. Pensar arquitetura é pensar coletivamente, sempre”, alerta.

CURIOSIDADES

O APELIDO

Viviane tornou-se Vika ainda na adolescência. “Uma amiga da época em que estudava no Colégio São José me chamava de Vivika. O apelido logo foi reduzido para Vika, e todos me chamavam assim. Depois de um determinado tempo, entendi que era importante assumir Vika na minha identidade profissional”, explica.

ATIVISTA INFANTIL

Certa vez, apareceu um gambá no colégio, chamando a atenção dos estudantes. A irmã Gema sugeriu matá-lo. Os estudantes, então, liderados por Vika, criaram o movimento GAMBÁ NÃO, em defesa dos animais. “Lembro que fui entrevistada até na rádio”, diverte-se.

DO CAMPO E DA CIDADE

Vika é uma mulher em movimento. Apesar de amar o campo, é também bastante urbana:  “Sou uma cigana, estou sempre girando. Adoro fazer projetos rurais, mas preciso da cidade também, da interação”.

SIMPLICIDADE E AMOROSIDADE

Vika conversou com o Made in Vacaria em uma tarde de janeiro em Porto Alegre, onde mora. Chegou de cara lavada, com brincos de miçanga, muito natural. Sua simplicidade é marcante, assim como sua amorosidade. Mesmo com senso crítico aguçado, sempre fala de modo amoroso das pessoas, dos projetos e do futuro.

por Giana Pontalti | fevereiro de 2020.

3 COMENTÁRIOS

  1. Fiquei encantada com a entrevista da Giana Pontalti sobre a Viviane, sempre nos orgulhamos do seu trabalho e dedicação e ficamos felizes quando é reconhecido.
    Parabéns a todos que acreditam e correm atrás dos seus sonhos.

  2. Giana Parabéns pela matéria!! Aqui em Floripa, estamos orgulhosos da menina q vimos nascer. Os Pais, devem estar Encantados pelos projetos maravilhosos que ela desenvolveu e desenvolve com muito capricho, preservando a saúde e bem estar de todos. Parabéns, Vika.

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