Evilázio Teixeira, reitor da PUCRS

O saber dos inquietos

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Inquieto. Assim é Evilázio Francisco Borges Teixeira, vacariense, reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). “A inquietude me acompanha desde criança. Não paro, sou movimento, graças a Deus! Pois, dentro de uma perspectiva evangélica, só os inquietos conquistam o Reino dos céus, diz, sem nenhum sinal de soberba.

Irmão Evilázio em sua sala de trabalho na PUC-RS | Crédito: Giana Pontalti

Apesar de se considerar um inquieto por natureza, é com tranquilidade que Vila – como gosta de ser chamado – me recebe para conversar. Acolhe-me com um sorriso no rosto, serenidade e muita simpatia. “Não me chame de senhor, por favor”, pede logo na chegada, evitando a formalidade.

Aos 52 anos, Evilázio tem um currículo acadêmico invejável. Emprega seu conhecimento – técnico e humanístico – na gestão de uma das cinco melhores universidades privadas do país. O conhecimento serve, também, para iniciar o diálogo:

“Evilázio tem origem grega, significa aquele que acalma, ou ainda,
aquele que porta uma boa notícia.
Sou um otimista até no nome”, conta, achando graça.

Apesar da agenda atribulada, a conversa segue com ritmo natural. “Quando alianos inquietude à sabedoria é uma maravilha”, reforça.

A INFÂNCIA EM VACARIA
Contar a trajetória de Vila é falar de movimento, dinâmica. Nasceu em Coxilha Grande, interior de Vacaria. É um dos 11 filhos de Ignez, uma italiana de pulso firme, e de Ari, luso-açoriano. “Herdei de minha mãe a coragem. Tenho muito apreço pela história dela. Ela rompeu com o conservadorismo da família para casar”, comenta.

Vila morou em Vacaria até os 10 anos. Partiu cedo, mas as memórias estão vivas. “O nosso mundinho girava em torno do meio rural, quase não vínhamos para a ‘cidade’. Eu acompanhava a mãe na roça, brincava de plantar com minha enxadinha, de caçar passarinho, com o cão”.

Foi uma infância exigente, mas não sofrida.
Sofrida é quando não se tem amor”.

O pai trabalhava em uma serralheria. “Migrávamos de um lugar a outro”, relembra, ” sempre em busca de melhores condições de vida. Não era fácil sustentar tanta gente.” Mas se a realidade era limitada, o sonho decolava: “Eu olhava o avião atravessando os céus e queria viajar, meu sonho era ser piloto”.

Ainda menino, a família partiu para Flores da Cunha. “Um tio havia conseguido um emprego na Toigo Móveis. A empresa oferecia benefícios como moradia”, explica. Com apenas 10 anos, Vila estudava em um turno e empalhava garrafão no outro. Aos 13, foi contratado como office-boy da Toigo. “Eu fui escolhido para a função porque me comunicava bem e gostava de me relacionar com as pessoas”, explica. Flores deu oportunidade de crescimento à família Teixeira, inclusive economicamente. “Foi em Flores que conheci luz elétrica. Foi lá, também, que tirei minha primeira foto, para a carteira de trabalho”, revela.

O TRABALHO COMO VALOR FAMILIAR E A AUTONOMIA
O gosto pelo trabalho está no DNA de Vila. Ainda adolescente, conquistou sua independência financeira. O menino, precoce, parecia ter pressa em viver: começou a falar com menos de um ano. “Para um garoto, isso não é tão comum. Mas eu tinha oito irmãs, e as mulheres falam bastante”, conta rindo. Com 13 anos já pagava as suas contas, e aos 14, descobriu o amor pelos livros.

“Eu lia Kant, Heidegger – e não entendia coisa alguma,
mas sabia que um dia eu ia entender”.

 

 

 

RELIGIÃO COMO AÇÃO
Quando estava com 15 anos, fez a primeira comunhão. Na catequese, viu despertar outra vontade: a de ser padre. “Nasci em uma família católica, porém não demasiadamente religiosa. O ímpeto de seguir a vida religiosa nada tem a ver com o âmbito familiar, pelo contrário. Quando anunciei ao meu pai que queria ser padre, foi uma decepção. Imagina um gauchão de Vacaria dizendo: ‘Não criei filho meu para ser padre’”, diverte-se lembrando. Mesmo a contragosto de Ari, Vila ingressou no seminário.  A injustiça social é o que o aproximou da vida religiosa.

“De modo especial, me incomodava muito essa questão das injustiças e, sobretudo, essa dicotomia entre rico e pobre. Eu tinha em mim esta questão muito forte, de que a sociedade deveria ser mais igualitária. O mundo que se apresentava a mim não era justo, não era o que eu queria viver”.

Religião, para Vila, é antes de tudo uma forma de compartilhar uma visão de mundo. Mas o “rebelde” Vila não se adaptou ao seminário: saiu em menos de um ano e partiu para Dourados, no Mato Grosso do Sul. “Usei minha facilidade de comunicação para vender artigos de cama, mesa e banho. Era caixeiro viajante – representante é coisa chique de se falar”, destaca. Trabalhou na empresa de seu irmão e cunhado. Há poucos dias em Dourados, foi convidado a participar de um grupo de jovens. “Quando se chega a uma cidade em que não se conhece ninguém, precisamos nos inserir em grupos, ampliar a nossa rede de contatos. Foi o que fiz. Lá, fiz amigos e me aproximei dos Irmãos Maristas; alguns deles, gaúchos. Senti-me em casa”, diz.

Junto aos Maristas, Vila encontrou amigos e amparo para sua inquietação: “Os Irmãos eram muito atuantes na pastoral popular, realizavam ações junto aos jovens, aos índios kaiowás, crianças de rua, e com o movimento dos trabalhadores sem-terra”. Aos poucos, Vila foi se envolvendo com a congregação. Estudava em um turno do dia e, no outro, participava das ações sociais dos Maristas. Mesmo bem adaptado à cidade, voltou ao Sul para terminar o magistério em Viamão.

Ao regressar, contou ao pai sobre a vontade de viver uma experiência como Irmão. Vila então fez a formação específica para ser Irmão Marista: postulado, noviciado, os cursos de filosofia e teologia. “A formação filosófica foi uma opção, gosto do mundo das ideias e de escrever. Teologia foi uma necessidade, pois não tínhamos muitos irmãos teólogos. Eu sou amante das duas: ora me dedico à filosofia, ora a teologia, gosto de pensá-las como primas irmãs”, conta. Em Roma, Vila concluiu o mestrado e doutorado nas duas áreas. Também é bacharel em direito e planeja estudar gastronomia. “Inquieto é inquieto”, lembra.

Com tanta formação acadêmica, não é de estranhar que goste de ler. “Cheguei a ler 130 livros em um ano”, confessa. Mas leitura é um prazer, assim como a escrita e a sala de aula: “Se tem um lugar em que me sinto confortável é a sala de aula. Mas quando assumi como vice-reitor, em 2004, precisei me dedicar a outras atividades”.

EDUCAÇÃO COMO MISSÃO
Vila assumiu a Reitoria em dezembro de 2016. Encara o desafio com muita responsabilidade. O reitor explica que nas últimas duas décadas, a PUCRS vem se transformando, para dar as respostas aos grandes desafios do mundo contemporâneo, conhecido também como sociedade do conhecimento. Recentemente, as 22 unidades acadêmicas foram transformadas em escolas de conhecimento. “Universidades com mil anos têm mudado, nós também precisamos mudar. Inovamos para oferecer um ensino transversal e interdisciplinar”, diz. Vila explica que a universidade deve formar um profissional de visão empreendedora, capaz de atuar em qualquer lugar do mundo. “Não se pode mais formar um futuro empregado, mas um empreendedor, um criador de empregos”, pontua.

“O engenheiro precisa ser bom em psicologia porque lida com gente, e o psicólogo precisa entender de marketing. É uma questão de sobrevivência”.

Como um visionário da educação, Vila revela a sua maior preocupação: “Nós temos um déficit abissal e inimaginável, no Brasil, na formação de pessoas. Precisamos investir pesadamente nos próximos anos em educação. A educação é uma pauta prioritária. Não deve ser um plano de Governo, mas um projeto de nação”, analisa.

Só com maciço investimento em educação, ele acredita que o Brasil encontrará soluções para os desafios que se apresentam.

“Estamos vivendo uma fuga de cérebros sem precedentes. Grandes talentos estão saindo do país. Precisamos dar condições para que esta meninada jovem permaneça aqui. Precisamos de projetos para que os jovens queiram ficar e os que estão fora queiram voltar”, adverte. 

O mesmo alerta vale para Vacaria: “Vacaria, também possui esse enorme desafio de oferecer melhores condições e oportunidades à juventude. Precisamos aumentar as possibilidades de alavancagem do desenvolvimento da cidade”, sentencia. Vila acredita que as opções em Vacaria são restritas: ou você é filho de uma família abastada, que oferece condições, ou tem poquíssimas oportunidades de acesso a emprego, muitos deles secundários.

Aos 52 anos, Vila percorreu um longo caminho. Morou na Itália, na França, na Irlanda, na África do Sul e nos Estados Unidos, conheceu muitos outros países em missões educacionais: Noruega, Índia, China e, mais recentemente, Malásia. Trabalhou desde cedo, migrou sem medo, estudou muito e se desafiou.

“É preciso sonhar grande. Há um ditado que diz: se teus sonhos não te dão medo, eles não são grandes o suficiente”.

E para onde levam os sonhos de Vila? “Tenho ainda um período de dois anos e meio na função de Reitor e dentre os grandes desafios está a consolidação do novo modelo de gestão e governança – campus do futuro e da saúde. Ainda penso em continuar estudando, em fazer um outro curso. A formação é para toda a vida. Sempre podemos aprender coisas novas e sermos melhor do que já somos”.

CURIOSIDADES: 

*Evilázio é doutor em filosofia e teologia. Mas, quando jovem, sonhava mesmo fazer teatro. Foi diretor do grupo Zoé, por cinco anos.

*Tem um carinho imenso por Vacaria e destaca a alma poética do vacariense. O vacariense, segundo ele, se distingue pela hospitalidade, simplicidade e generosidade, é amante da palavra, da música, da poesia, da expressão artística.

*Acredita que a educação precisa estimular a autonomia e o empreendedorismo.

*Já escreveu cinco livros e dezenas de artigos acadêmicos. Quer escrever mais.

*Vila tem parentes em Vacaria. Esteve na cidade recentemente, durante o 32º Rodeio Crioulo Internacional. Sonha com uma melhor formação e oportunidades, especialmente, das crianças e jovens vacarienses.

*A PUC hoje tem em torno de 26 mil alunos entre a graduação e pós-graduação. Mais de um terço dos alunos da graduação têm acesso à universidade através de algum programa de incentivo.

O reitor diz estar disposto a ajudar Vacaria: “No que eu puder ajudar a minha cidade de referência e do coração, coloco-me a disposição”.

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