De Roraima a Vacaria

O garoto que veio do 'topete' do Brasil

0
346

Quando começa a conversar, Clederson Guerra Trevisan logo denuncia que não é da terrinha. Fala “fêcha” ao invés de “fecha”, pronuncia “Roráima” com acento no “a.” O moleque, como ele próprio costuma chamar os garotos de sua idade, veio do estado mais distante do nosso: Roraima, o estado confundido com Rondônia. “Até o Jornal Nacional faz confusão, eles trocam as siglas dos dois”, revela, achando graça.

Clederson no trabalho | Arquivo pessoal

Roraima é de extremos. É o estado mais ao norte do Brasil, lá no topete do país. Faz divisa com a Venezuela e a Guiana. É o menos povoado, tem menos habitantes que Caxias do Sul. Seu território possui o maior número de reservas indígenas do Brasil, atingindo 47% das terras.

“Quando me perguntam o que tem em Roraima, respondo: floresta, animais e índios. No começo eu achava ruim toda essa demarcação e preservação. Hoje, entendo que são necessárias”, comenta.

O jovem partiu de São João da Baliza, pequena cidade de 7 mil habitantes ao sul de Roraima, para estudar na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul em Vacaria. “São João é grande produtora de banana prata. Aproveitei minha nota no Enem e me inscrevi em fruticultura”, diz. Na mesma semana do resultado, já embarcou para cá. “Não tinha dinheiro para a passagem: em cima da hora, ela custava quase R$ 2 mil. Meu tio me presentou”, conta. Veio para o Sul com a cara e a coragem, sem nada conhecer. “Sou de uma família de quatro filhos, e eu sempre fui o mais ‘largado’, desgarrado. Sempre soube que iria sair de lá”, salienta. A mãe dele só não imaginava que ele partiria para um lugar a 5 mil quilômetros de distância.

Além de estudar – Clederson cursou dois anos de fruticultura e depois trocou para ciências agrárias –, o jovem trabalha como assistente de serviços gerais na fazenda do grupo RAR. “Eu trabalho e moro na fazenda. O fato de ter mais gente morando lá, faz com que eu não me sinta tão sozinho”, destaca. O contato com a família não é frequente. A passagem de avião é muito cara para que possam vir visitá-lo. Em dois anos e meio em Vacaria, só foi a Roraima uma vez. “Telefone fica complicado porque minha operadora e a da mãe são diferentes. Mas, com o WhatsApp, ficou mais fácil falar”, conta o filho de Ana Francisca. A sorte é que o rapaz deixou um irmão gêmeo por lá.

Apesar de integrado a Vacaria, Clederson sente muita falta da família e dos amigos. “Como lá tem muita natureza, costumava acampar, estava sempre fazendo alguma atividade em meio à mata, com os amigos”, diz. Fora isso, não estranha nada por aqui. A comida é parecida, e o povo também. “Roraima foi formada por gente de todo o lugar, o estado fez campanhas atraindo gente para a ocupação do território. Meus pais, por exemplo, são do Paraná, e meus tios são gaúchos. Comemos churrasco lá”, comenta. Churrasco com farinha indígena. “A comida dos índios é muito saborosa. A melhor farinha que comi foi preparada por eles”, constata.

Em pescaria com amigo | Arquivo pessoal

A cultura e as terras indígenas compõem a identidade original de Roraima.

“Lá tem todo tipo de índio, o urbanizado, que vive de caminhonetão, e os que vivem isolados nas matas, como costumamos imaginar. Dizem que tem até canibais. Em suas terras, nem os agentes de saúde arriscam entrar”, conta.

Além dos índios, a geografia também valoriza o local. Um dos montes mais famosos do Brasil, que inspira cineastas e escritores, é de lá: o Monte Roraima.

O Monte ficou ainda mais conhecido quando a novela Império foi ao ar. O personagem de Alexandre Nero, o comendador, começou a garimpar em Roraima e se tornou um grande empresário de joias. O Monte Roraima é, de fato, um lugar com muitas preciosidades. Tem o Vale dos Cristais, com formações rochosas de 2 bilhões de anos e uma flora peculiar, pouco evoluída por causa do clima e altitude.

 

 

O acesso é para os aventureiros, pois para chegar lá é preciso enfrentar 15 quilômetros de subida. Está entre os destinos mais cobiçados pelos trilheiros. A novela Império, na verdade, foi filmada em Minas Gerais, em região que representa o Monte. Clederson não conhece o Monte Roraima, tampouco assistiu à novela. Mas conhece outros tesouros naturais de sua terra como a Samaúma, árvore considerada sagrada para os que habitam as florestas. De tão altiva e frondosa – chega a atingir 70 metros de altura –, recebeu o título de Rainha da Floresta. Surpreendente? Não, pois Roraima está ao lado do Amazonas, onde a floresta é sem igual.

*Coluna publicada no Correio Vacariense em 01 maio de 2015, na coluna VAI E VEM.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here