Médicas cubanas em Vacaria

As mães que deixam os filhos e partem em missão

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Falar de Cuba é falar de autenticidade. O país é o único do continente americano que decidiu trilhar um caminho político diferente da maioria dos países do mundo: o socialismo. É improvável mencionar Cuba sem recordar a personalidade marcante de Fidel Castro*, degustando um típico havano, charuto cubano. O líder esteve à frente da revolução que culminou em 1959. “Fidel é muito querido no país. Quando me perguntam de Cuba por aqui, é para saber se ele está vivo”, conta Isabel Toranzo Suarez*, médica. É difícil citar Cuba sem lembrar a capital Havana e seus carros antigos. Como falar da ilha sem apontar sua musicalidade e suas águas cristalinas do mar do Caribe? Cuba suscita paixões e discussões tão acaloradas quanto suas temperaturas. Discussões geralmente pouco fundamentadas, e alimentadas por mitos.

“Lá, o que nos transmitem do Brasil são as favelas, o Rio de Janeiro e o carnaval: os estereótipos. Aqui, acontece o mesmo com Cuba”, explica Isabel.

 

 

 

 

 

 

 

 

Músicos nas ruas de Havana, a capital | Crédito: Pixabay

Isabel integra a equipe de sete profissionais cubanos que atuam em Vacaria pelo Mais Médicos, programa do Governo federal. Eles atendem nas periferias de Vacaria e no meio rural. “Cuba é um país muito rico em saúde e educação”, destaca Isabel, fã da revolução.

“Não temos muita riqueza natural, como o petróleo ou minerais. Talvez, por isso, sejamos uma potência médica. Cuba forma médicos como meio de garantir recursos econômicos e, também, para ajudar os países que têm dificuldades de formar esses profissionais em número suficiente”,
revela Beatriz Hecharravia Castro*.

As duas doutoras decidiram imigrar, para conhecer o Brasil e uma nova realidade. Corajosas, partiram em missão, deixando companheiros e filhos para trás.

Beatriz veio de Songo la Maya, e Isabel, de Honguín, cidades na parte leste da ilha, a mais quente. “Não queria vir ao sul do Brasil por causa do frio, mas acabei sendo destinada para cá. Eu adoro, gosto das pessoas de Vacaria porque são muito solidárias e queridas”, diz Isabel. A extrovertida médica, de sorriso fácil e jeito amigo, não tardou a conquistar a comunidade do bairro Borges, onde trabalha. “Quando voltei de férias, me recepcionaram com uma festa”, conta orgulhosa. Isabel foi a primeira cubana a chegar aqui e, possivelmente, será a última a partir. “Já trabalhei na Venezuela e pretendo ficar aqui por um bom tempo, porque, quando regressar, quero me dedicar ao meu povo”, esclarece.

Beatriz atua na ESF Barcelos | Crédito: Giana Pontalti

E é do povo cubano que Beatriz mais sente saudades. “Fomos bem acolhidos em Vacaria, mas as relações são distintas. Se estou em uma parada de ônibus em Cuba, por exemplo, e passa alguém conhecido, certamente oferece carona”, explica. A médica estranha a tímida convivência entre as pessoas e os vizinhos, sente-se sozinha nos finais de semana e sente falta da movimentação familiar. “Falo com minha família por e-mail todos os dias, e, a cada dois, telefono para Alberto Miguel, meu filho de seis anos”, conta, com a voz baixa, revelando certo sofrimento. Em Cuba, o acesso à internet é restrito, e nas residências, a internet é liberada apenas para o correio eletrônico, não tem Skype.

Os cubanos valorizam as relações. E é pela atenção dedicada aos pacientes que os médicos cubanos estão conquistando os vacarienses. Se o socialismo não permitiu o desenvolvimento econômico e o acúmulo de bens materiais, por outro lado, alavancou o desenvolvimento social.

“O povo não pensa somente em ter mais dinheiro ou coisas materiais. Por isso, somos felizes com o que temos e valorizamos a humanidade”, salienta Isabel.

O dinheiro está longe de ser a principal preocupação dos médicos. “O estudante ingressa em medicina, em Cuba, por vocação. É claro que o médico conquista certo status com a profissão. Mas vivemos de forma simples, moramos nos mesmos bairros e vivemos do mesmo jeito da gente que tem outra profissão. Somos muito próximos às pessoas da comunidade onde atuamos”, comenta Beatriz, que atende no bairro Barcelos. O que preocupa os médicos por aqui é o acesso a exames e especialistas.

“Em Cuba tem o hogar materno, uma casa que acolhe mulheres com gravidez de risco, onde são assistidas. Aqui, uma grávida de 40 semanas vai ao hospital, e mandam embora sem, ao menos, fazer um exame”,
diz Beatriz.

“Quando tenho um paciente precisando de um cardiologista, de um traumatologista, fico inquieta”, confessa Isabel. Mas como genuínas cubanas, tentam sempre fazer o melhor com os recursos de que dispõem.

Homenagem aos médicos cubanos na Câmara Municipal de Vacaria

E o que Cuba tem de melhor? O povo, repetem as médicas. Além dele, o tabaco, o rum e o café conquistaram fama internacional pela excelente qualidade. A música e a dança, a salsa, e o beisebol. “O esporte mais praticado é o beisebol, embora gostemos muito do futebol”, revela Isabel. Tem também as praias, e a história que sempre desperta curiosidades. “Temos lindas praias. Varadero está entre os destinos que mais atraem os turistas. Os lugares históricos, como Sierra Maestra, também”, salienta Isabel. Se depender de sua peculiar história, na contramão do capitalismo, Cuba vai continuar despertando atenção sempre.

Varadero | Crédito: Pixabay

Esta coluna foi publicada originalmente em julho de 2015, Fidel estava vivo e Isabel morava em Vacaria. 

ATUALIZANDO | MAIO 2018: 

*Beatriz Hecharravia continua em Vacaria, trabalhando na ESF Barcelos. Ficou contrato com o Município para permanecer mais três anos por aqui. “Atuamos por missão, se eu partisse daqui, seria enviada para outro lugar. Prefiro permanecer onde já estou habituada e conheço os pacientes” afirmou. Beatriz está com 40 anos e seu filho Alberto Miguel já completou 9. Boa notícia: eles se falam todos os dias pelo aplicativo IMO. A internet de Cuba melhorou e a comunicação está facilitada. 
*Izabel voltou a Cuba em abril de 2017.
*Atualmente em Vacaria, sete profissionais atuam pelo Mais Médicos. 

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Adorei a entrevista! Cuba es linda!

    “Ahora el guajiro vive contento,
    Vive feliz en comunidad
    ¡Qué linda es Cuba!
    Cuba, qué linda es Cuba
    Quien la defiende la quiere más
    ¡Qué linda es Cuba!
    Cuba, qué linda es Cuba
    Quien la defiende la quiere más

    Un Fidel que vibra en la montaña
    Un rubí, cinco franjas y una estrella”

  2. Linda matéria. Estive em Cuba por duas semanas. Adorei aquele país. Adorei seu povo, suas praias, sua natureza e sua história. A matéria trouxe-me ainda mais saudades, assim como as fotos. Boa sorte aos médicos cubanos que retornam ao seu país. E as desculpas do povo brasileiro pela forma vergonhosa e desrespeitosa com que foram tratados no momento do desfecho de sua estadia em nosso País.

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