Tiaraju Lima Orsi, futuro treinador olímpico

No caminho do pódio

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Ao contrário da maioria dos jovens de 15 anos, Tiaraju Lima Orsi já sabia bem o que queria ser na vida. Ao ingressar na academia, se apaixonou por musculação e decidiu ser preparador de atletas. A ideia de ser médico cardiologista evaporou na juventude. “Quando menino pedia à minha mãe para lutar. Mas como eu era meio bravo e reinento, ela tinha medo que eu saísse brigando por aí”, revela. Os pais não vislumbravam a luta como um esporte capaz de disciplinar. Foi só depois de Tiaraju ingressar na faculdade de educação física e mostrar dedicação aos estudos que Dalva e Itiberê levaram o filho a sério.

Formou-se em educação física pela UCS, fez pós-graduação em fisiologia do exercício na UFRGS e, também, em bases científicas da preparação física para as artes marciais, na Unifesp*. Lá, conheceu o professor Antônio Carlos Gomes, que o indicou para a Universidade Estadual de Cultura Física na Rússia, escola de referência mundial na formação de treinadores esportivos. Fez mestrado e, agora, está no segundo ano do doutorado.

Tiaraju no período de neve, 06 meses por ano o país é encoberto pela neve

NA LUTA PELO PÓDIO

Tiaraju tem 30 anos e, desde que se conhece por gente, está na trajetória de seu sonho. “Eu sou extremamente sonhador. Meu maior sonho era estudar na Rússia, no lugar onde estou, na universidade e departamento em que estou, porque a Rússia é a maior escola de treinamento esportivo do Planeta, até hoje. A URSS desenvolveu ciências do esporte de alto rendimento. Teorias criadas há 50, 60, 70 atrás, ainda são modernas”, conta.

O vacariense também sonhou em ser fisiculturista, chegou a ser campeão gaúcho na modalidade, mas lesões o impossibilitaram.

“Só não fui atleta porque quando eu lutava, não conheci pessoas com conhecimentos suficientes para me ajudar. Eu prometi a mim mesmo que ajudaria e ajudarei qualquer pessoa que tenha este mesmo sonho. Vou emprestar o meu conhecimento, vou apoiar”, reforça.

APOSTA DOS AMIGOS

Tiaraju mudou-se para a Rússia em 2014, de mala e cuida, literalmente, e com pouco dinheiro no bolso. “Se estou lá hoje é por causa de meus amigos e da minha família, que me ajudam, cada um com o que pode. Eu treinei muita gente em Vacaria, de graça. Eles retribuem de uma forma muito bonita”, conta, emocionado.

Desde que migrou, mora com estrangeiros, atualmente com um vietnamita. “Na Universidade tem gente de mais de 30 países. O lado ruim é que firmamos amizades e as pessoas vão embora. Já me acostumei, mas é chato. Sinto-me solitário”, revela.

MENINOS E SUPER-HERÓIS

A vontade de ganhar força sempre foi latente. Acredita que a força e a luta representam poder, autoafirmação, motivos pelos quais os meninos sempre admiram e gostam dos super-heróis.

“Eu fui um menino tímido e, de certa forma, inseguro. A luta dá segurança. Acho que, inconscientemente, eu queria me sentir mais forte.”

Ele gosta muito de ninjutsu, uma arte marcial japonesa e do kickboxing, uma luta esportiva de competição.

Em treino recente em Vacaria durante suas férias

SINCERIDADE RUSSA

A língua foi o maior desafio que encontrou. Ele brinca, que se nada der certo vai ser tradutor. “O russo é muito complexo, se um objeto está encima da mesa, tem um nome; se está embaixo ou em movimento, tem outro. Eu aprendi, mas não ouso dizer, mesmo depois de quatro anos, que sou fluente”. Explica que o povo, diferente do que costumamos pensar, é muito parecido com o brasileiro. São alegres e brincalhões. Entre os comportamentos que preza está a sinceridade. “Os russos são diretos, falam o que pensam, não existe talvez. Eu sou assim também”, infere.

Tiaraju exportou para a Rússia o chimarrão. Da cultura russa, adotou o hábito da sauna. “Os russos vão à sauna duas a três vezes por semana, é ponto de encontro”, explica. A vodka, bebida popular, aprecia muito raramente. Ele é bastante disciplinado com o corpo. Além de treinar todos os dias, se alimenta de forma saudável e não bebe. “Estou de férias em Vacaria. Aqui, como mais e bebo também. Mas álcool eu só consumo uma vez a cada dois meses lá”, comenta.

Defesa da tese de mestrado

PERSISTÊNCIA: 15 HORAS DE LEITURA E 1 HORA DE TREINO

A rotina de Tiaraju exige mais mentalmente do que fisicamente. “Acordo abrindo livros e só vou dormir ao fechá-los. Estudo entre 10 e 15 horas por dia, por causa do doutorado.” Para relaxar, ele vai treinar. “Não suportaria ler tanto se não treinasse, ajuda muito”. Há estudos que apontam que o número de praticantes de esportes de alto rendimento tem multiplicado porque as pessoas precisam “esfriar a cabeça”. Quanto mais se exige do corpo, mais folga se dá ao cérebro.

RUMO À CHINA

O jovem vacariense acredita que depois de finalizar os estudos seguirá a algum país onde o esporte seja parte da cultura, como a China. “O Brasil poderia ser uma potência olímpica, por causa da diversidade étnica, mas não investe nisso. Atleta no Brasil é pobre, só é lembrado na hora da competição. O Governo não subsidia”, analisa.

Vê a China com potencial porque é populosa, cresce vertiginosamente e fomenta o esporte. O país despertou para os esportes de alto rendimento e importou mais de 200 treinadores nos últimos anos. “Ser uma potência olímpica é planejamento. Em 1996, a China não estava entre os 10 países com mais medalhas. Em 2000, quando soube que seria sede olímpica intensificou os investimentos. Em 2004, já estava na lista dos cinco países medalhistas e, em 2008, quando sediou as Olimpíadas em Pequim, chegou ao topo, à frente dos americanos”, pontua.

ESPORTE: EMPODERAMENTO E ECONOMIA

Não é por nada que a Rússia exporta treinadores olímpicos para todo o mundo. O esporte no país é entendido como uma forma de educar. Há escolas esportivas por todo o território. “São cinco níveis de escolas. O quinto ano é o de reserva olímpica e tem formação técnica. Se o atleta não vingar, ele será direcionado a ser um instrutor ou esportivo”, explica.

Segundo Tiaraju, o esporte também é uma forma de um país demonstrar poder. “Quem conquista mais medalhas, indiretamente, reforça a superioridade nacional”, lembra.

O vacariense propõe uma reflexão sobre a importância do esporte:

“Apenas um em um milhão de atletas se torna medalhista olímpico. Por que é, então, que alguns governos investem tanto dinheiro se poucos serão vencedores? Porque o esporte dá  às pessoas maior senso de respeito e educação, e as torna críticas. Elas aprendem a se movimentar, o que as deixa mais saudáveis, consequentemente menos doentes, e o Governo poupa com isso”.

COPA DO MUNDO: PÉ QUENTE E FRIO

Tiaraju foi contratado pela Globo/SportTV para trabalhar como produtor local na Copa do Mundo. “Assisti à Alemanha perder para a Coreia do Sul, à Argentina para a França, e ao Brasil para a Bélgica”, pé frio. “Fui contratado porque sei russo, fui tradutor.  Acompanhava os jornalistas, e os ajudava no agendamento de entrevistas, produção de matérias, definição de locais para filmagem”. A experiência fez o garoto respeitar ainda mais o trabalho do jornalista esportivo.

O APREÇO POR VACARIA

“É a minha casa. Meus pais moram aqui, é minha obrigação voltar. Mesmo que meus pais não estivessem aqui, voltaria de qualquer forma, pelos amigos”.

Tiaraju tem grande apreço pela cidade e revela que saiu daqui por necessidade, não por opção. “Quem reclama de onde vive, vai reclamar de qualquer lugar. Morar em uma metrópole não é assim tão diferente do interior, porque você vive em uma realidade, tem rotina: trabalha, estuda. O que muda, em partes, são as oportunidades”, analisa.

  • Pós-graduação promovida pelo Centro de Fisiologia e Treinamento, da Unifesp, em parceria com o Instituto Doctum e Sport Training.

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